Só consigo dormir de madrugada: quando pode ser atraso de fase do sono?

Postado em: 21/10/2026

Mulher deitada estende a mão para um despertador ao lado da cama.

Imagine esta situação: nos dias de trabalho, a pessoa se deita cedo, passa muito tempo acordada e sofre para levantar com o despertador. Nos dias livres, adormece de madrugada e acorda mais tarde, sentindo que dormiu melhor. Esse exemplo pode levantar a hipótese de atraso de fase do sono, mas não é suficiente para confirmá-la.1

No transtorno de atraso de fase do sono-vigília, o período habitual de dormir e acordar está persistentemente atrasado em relação aos horários necessários ou desejados, com dificuldade para conciliar os dois e prejuízo na vida cotidiana. Gostar da noite, por si só, não é um transtorno.1

O horário em que o sono funciona também importa

Durante a avaliação, descreva como dorme nos dias com compromissos e naqueles em que pode escolher seus horários. Quando a pessoa consegue seguir seu padrão tardio, a duração e a qualidade do sono costumam melhorar. Essa diferença ajuda a investigar o problema, mas precisa ser examinada junto a outras explicações.1,2

Trabalhar até tarde e levantar cedo pode simplesmente deixar poucas horas disponíveis para dormir. Na insônia, existe dificuldade para iniciar ou manter o sono apesar de uma oportunidade adequada. No atraso de fase, o desencontro com o horário exigido é uma parte central da queixa. Essas situações podem coexistir; o diagnóstico não se resolve apenas perguntando a que horas alguém vai para a cama.

Por isso, não existe um horário de relógio que, isoladamente, determine o transtorno. A persistência do padrão por pelo menos três meses faz parte da avaliação diagnóstica. Isso não é um prazo para esperar antes de procurar ajuda se os atrasos, a sonolência ou a dificuldade para cumprir compromissos já estão causando problemas.1

A página sobre insônia e quando procurar ajuda aprofunda outras formas de dificuldade para dormir.

Uma semana de horários reais ajuda mais que uma noite isolada

O diário de sono permite observar o padrão ao longo dos dias. Para essa investigação, registre por pelo menos sete dias, incluindo dias com compromissos e dias livres. O profissional pode pedir um período maior; não é necessário concluir o registro para marcar a avaliação.1,2

Em papel ou no celular, anote:

  • Quando tentou dormir e a estimativa de quando adormeceu.
  • Despertares durante a noite, horário de acordar e de sair da cama.
  • Cochilos e os compromissos que determinaram a hora de levantar.

Acrescente informações que possam explicar diferenças entre os dias, como cafeína, medicamentos ou exposição à luz até tarde. Não é preciso comprar um relógio nem conferir as horas continuamente durante a noite: estimativas são úteis para reconstruir o padrão.2

Uma anotação ilustrativa seria: “Tentei dormir às 23h, acho que adormeci perto das 2h, o despertador tocou às 7h e saí da cama às 7h30. Cochilei à tarde”. O valor do registro está em compará-lo aos outros dias — sobretudo àqueles sem despertador. Esses horários são apenas um exemplo, não um critério diagnóstico ou uma rotina recomendada.

Nesse exemplo, entre tentar dormir às 23h e sair da cama às 7h30 passaram oito horas e meia, mas, até o despertador tocar, o sono estimado foi de cerca de cinco horas, descontados eventuais despertares. Comparar esse registro com os dias livres ajuda a observar se a pessoa continua demorando para adormecer ou se dorme com mais facilidade e descansa melhor quando pode seguir um horário tardio. A diferença ajuda a investigar tanto o atraso do horário quanto a falta de horas suficientes de sono.1,2

A história clínica é a base da avaliação. Conforme a dúvida, pode ser indicada actigrafia, que utiliza um sensor de movimento para estimar períodos de sono e vigília. Polissonografia e medidas de marcadores circadianos, como a melatonina, têm indicações específicas; não são exigidas de todas as pessoas com sono tardio.2

Por que o horário faz parte do tratamento

O plano procura aproximar o período de sono dos horários que a pessoa precisa cumprir. Pode combinar programação do sono, organização da rotina, manejo da exposição à luz e, quando indicada, melatonina. As intervenções são escolhidas a partir do padrão observado e das condições de vida.3

Um mesmo sinal, como a luz, pode adiantar ou atrasar o ritmo conforme o momento em que é recebido. Com a melatonina, o horário também participa do efeito pretendido. Por isso, usar alguma dessas estratégias apenas “quando der” ou copiar o horário de outra pessoa pode não produzir o resultado esperado.1,3 O texto sobre ritmo circadiano e relógio biológico explica como o organismo responde aos sinais de horário.

Ao descrever a rotina, informe se acorda e permanece em um ambiente escuro ou se passa a noite em um local muito iluminado. A iluminação do cômodo também importa, além das telas. Se a exposição à luz fizer parte do tratamento, o profissional precisa definir quando aumentá-la ou reduzi-la a partir do seu padrão de sono. Isso também se aplica ao uso de aparelhos de fototerapia, que emitem luz para o tratamento.1,3

O plano precisa caber nos horários de levantar, trabalhar e atender às responsabilidades familiares. Se esses compromissos impedem seguir a programação proposta, é necessário ajustá-la. Essa dificuldade não deve ser atribuída à falta de disciplina.

O que os estudos mostram sobre a melatonina

A diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono, publicada em 2015, apresenta uma recomendação fraca a favor da melatonina em horário planejado para adultos com atraso de fase. Essa classificação reflete os limites da evidência disponível para orientar o tratamento.1

Em um ensaio posterior, 116 participantes foram distribuídos entre melatonina e placebo por quatro semanas. Ambos os grupos também seguiram uma programação comportamental de sono. No grupo da melatonina, o início do sono medido por actigrafia ficou, em média, 34 minutos mais cedo em comparação com o grupo placebo, considerando a mudança desde o início do estudo.4

Os 34 minutos representam uma diferença média entre os grupos, não o resultado de cada participante. O estudo aceitava participantes de 16 a 65 anos e selecionou aqueles em que o aumento noturno da melatonina produzida pelo organismo ocorria tarde em relação ao horário em que precisavam dormir. Esse critério limita a aplicação do resultado a toda pessoa com sono tardio. Em 43 participantes, esse horário foi medido novamente ao final do tratamento, sem diferença significativa entre os grupos. O estudo mostrou melhora do sono durante quatro semanas; não avaliou se o benefício se mantinha a longo prazo.4

Uma análise adicional, com categorias de melhora definidas depois da coleta dos dados, considerou a avaliação global dos médicos. Entre os participantes com essa avaliação, 52,8% no grupo da melatonina foram classificados como muito ou muitíssimo melhores, contra 24,0% no grupo placebo. Ambos também seguiram a programação de sono. Essa medida não representa cura ou remissão; na escala de melhora global respondida pelos próprios participantes, não houve diferença significativa entre os grupos.4

O acompanhamento observa também a facilidade para despertar, a sonolência durante o dia e o funcionamento na rotina. Antecipar o horário de dormir sem conseguir manter um período suficiente de sono não resolve, por si só, a dificuldade que motivou a consulta.

Quando a mudança do sono pede outra investigação

O atraso de fase pode ser investigado em pessoas com ou sem TDAH. Quem já tem o diagnóstico pode consultar o artigo sobre TDAH e sono em adultos, que aborda também os efeitos do tratamento e outras causas de noites difíceis.

Uma mudança episódica em que a pessoa passa a dormir muito pouco, sem sentir necessidade de recuperar o sono, junto de aceleração e alterações marcantes do humor, pede avaliação do conjunto. É uma situação diferente de um padrão antigo de adormecer e levantar tarde, embora um sintoma isolado não estabeleça bipolaridade.5 Para quem tem transtorno bipolar, intervenções com luz e mudanças do sono precisam ser planejadas com a equipe e acompanhadas quanto ao humor.1

Leve à avaliação seus horários reais e os compromissos que precisa cumprir. Não tente corrigir o padrão virando a noite ou atrasando progressivamente o sono por conta própria. O plano deve definir quais mudanças serão feitas, em que horários e como acompanhar o sono, a facilidade para acordar e a sonolência durante o dia. A avaliação também pode indicar a necessidade de um profissional com atuação em medicina do sono.

Referências

  1. Auger RR, Burgess HJ, Emens JS, Deriy LV, Thomas SM, Sharkey KM. Clinical practice guideline for the treatment of intrinsic circadian rhythm sleep-wake disorders: advanced sleep-wake phase disorder, delayed sleep-wake phase disorder, non-24-hour sleep-wake rhythm disorder, and irregular sleep-wake rhythm disorder. An update for 2015. J Clin Sleep Med. 2015;11(10):1199–1236. doi:10.5664/jcsm.5100.
  2. National Heart, Lung, and Blood Institute. Circadian rhythm disorders: diagnosis [Internet]. Atualizado em 24 mar 2022 [citado em 21 out 2026].
  3. National Heart, Lung, and Blood Institute. Circadian rhythm disorders: treatment [Internet]. Atualizado em 24 mar 2022 [citado em 21 out 2026].
  4. Sletten TL, Magee M, Murray JM, Gordon CJ, Lovato N, Kennaway DJ, et al. Efficacy of melatonin with behavioural sleep-wake scheduling for delayed sleep-wake phase disorder: a double-blind, randomised clinical trial. PLoS Med. 2018;15(6):e1002587.
  5. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Revisado em 2025 [citado em 21 out 2026]. NIH Publication No. 25-MH-8088.

Foto: Miriam Alonso / Pexels.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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