Transtorno bipolar e gastos impulsivos: como reconhecer mudanças e combinar proteção

Postado em: 22/10/2026

Pessoa usa cartão próximo ao computador e a caixas de encomendas.

Um aumento incomum de gastos pode fazer parte de um episódio de mania ou hipomania. Para entender o que está acontecendo, porém, o psiquiatra precisa saber o que mudou além das compras: sono, energia, atividade, humor e maneira de avaliar consequências. Uma dívida ou uma compra da qual a pessoa se arrependeu não confirma um episódio.1,2

Se isso já aconteceu, o período de estabilidade é uma oportunidade para decidir que ajuda seria útil caso o comportamento volte a mudar. O acordo pode envolver alguém escolhido pela própria pessoa e deve deixar claro como agir, quem procurar e quando rever as medidas combinadas.1

O que mudou em relação ao seu jeito habitual de gastar?

O preço de uma compra, sozinho, diz pouco. Alguém pode planejar uma despesa alta durante meses, sem qualquer mudança de humor. Em outra situação, várias compras menores, feitas com uma pressa incomum e sem considerar contas já previstas, podem chamar atenção. Não existe um valor em reais que separe um episódio de uma decisão financeira comum.

Além dos gastos, informe se passou a dormir menos sem sentir o cansaço esperado, multiplicou projetos ou ficou muito mais acelerado ou irritável. Na hipomania, a pessoa pode se sentir especialmente produtiva e não perceber a mudança como um problema, enquanto quem convive com ela nota a diferença.2

Para relatar o que ocorreu, uma descrição como “comecei a comprar equipamentos para vários projetos na mesma semana em que passei a dormir menos” é mais informativa que “perdi o controle”. Trata-se de um exemplo de relato, não de uma forma de diagnosticar a si mesmo. O artigo sobre sinais de mania e quando procurar ajuda aprofunda a avaliação dessas mudanças.

Um acordo feito enquanto você está bem

Antes de escolher uma medida, procure identificar onde esteve a dificuldade: compras concluídas em poucos toques, ofertas recebidas o tempo todo ou decisões importantes tomadas sem o tempo que você normalmente usaria. As opções abaixo podem ser discutidas durante a estabilidade:3

  • Desativar notificações de ofertas: reduz os convites para entrar em lojas e aplicativos ao longo do dia.
  • Retirar cartões salvos dos aplicativos: acrescenta uma etapa entre a vontade de comprar e a conclusão do pagamento.
  • Perguntar ao banco sobre alertas e limites voluntários: permite conhecer os recursos disponíveis e escolher os que fazem sentido para sua rotina, mantendo acesso às despesas essenciais.

São possibilidades práticas, não medidas com eficácia comprovada para impedir uma crise. A escolha depende da dificuldade vivida e do que a pessoa aceita fazer; não é necessário adotar todas.

O combinado com alguém próximo também precisa ser específico. Este exemplo pode servir de ponto de partida, com adaptações discutidas com a equipe:

Se eu voltar a fazer várias compras fora do habitual e a dormir menos, quero que minha irmã me avise sobre o que percebeu. Aceito que ela me ajude a contatar meu psiquiatra e que possamos avaliar juntos uma compra importante antes de concluí-la. Não autorizo acesso à minha conta ou às minhas senhas. Depois da avaliação, vamos rever se essa ajuda ainda é necessária.

O acordo pode ser adaptado: você pode preferir envolver um amigo, outra pessoa da família ou apenas a equipe de tratamento.

O que um familiar pode fazer — e o que não está autorizado a fazer

Ter transtorno bipolar, por si só, não justifica que outra pessoa tome o dinheiro, exija senhas ou passe a fiscalizar mensagens e compras. Ser familiar também não significa ter sido escolhido para essa função. No acordo, devem ficar explícitos os limites da ajuda e a possibilidade de revê-los.

Uma observação concreta permite discutir o problema sem transformar qualquer discordância em sinal de doença. “Você fez três compras que não estavam previstas e está dormindo muito menos” descreve o que foi percebido. “Você não sabe lidar com dinheiro” faz um julgamento sobre a pessoa inteira. A participação de familiares pode ser discutida no acompanhamento, respeitando o que o paciente autoriza; há outras orientações no texto sobre como apoiar alguém com transtorno bipolar.

Quando os gastos já estão aumentando

Se surgirem mudanças compatíveis com mania ou hipomania, procure a equipe para uma avaliação. Durante um episódio, a orientação é adiar decisões importantes até a recuperação. Reduzir o limite de um cartão não trata o episódio nem dispensa esse contato.1

Agitação grave, perda de contato com a realidade, ameaça ou perigo imediato exigem atendimento urgente. Não tente resolver a situação disputando cartões ou aparelhos à força. Procure um serviço de urgência e informe o que mudou no comportamento e no sono.1

Depois da crise, as consequências ainda podem precisar de atenção

A melhora do humor não apaga uma dívida nem resolve automaticamente a tensão com a família. Em um estudo qualitativo, entrevistas com 18 pessoas com experiência de transtorno bipolar e cinco profissionais identificaram comportamentos financeiros de risco e necessidades de apoio. Participantes também descreveram vergonha e arrependimento ao recordar comportamentos de risco. O estudo ajuda a reconhecer experiências que podem ficar de fora da consulta; não mede quantas pessoas com bipolaridade passam por isso.4

Rever o episódio permite perguntar se a ajuda chegou a tempo, se foi respeitosa e se alguma medida atrapalhou mais do que ajudou. Se as dificuldades financeiras continuarem em períodos de estabilidade, elas merecem atenção própria, sem atribuir tudo ao transtorno bipolar.

Na próxima consulta, descreva uma mudança que percebeu nos gastos e como estavam o sono e o humor naquela época. Diga também que tipo de ajuda aceitaria se isso voltasse a acontecer.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. Clinical guideline CG185 [Internet]. London: NICE; 2014 [atualizado 2 set 2025; citado 22 out 2026]. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg185/chapter/Recommendations.
  2. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [citado 22 out 2026]. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/bipolar-disorder.
  3. Bipolar UK. Bipolar and money [Internet]. [citado 22 out 2026]. Disponível em: https://www.bipolaruk.org/about-bipolar/living-with-bipolar/money/.
  4. Harvey D, Rayson P, Lobban F, Palmier-Claus J, Jones S. Lived experience at the core: a classification system for risk-taking behaviours in bipolar. Digit Health. 2024;10:20552076241269580. doi: 10.1177/20552076241269580. Texto completo: PubMed Central.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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