Depressão e doença renal crônica: como reconhecer e organizar o tratamento
Postado em: 22/10/2026
Ter doença renal crônica não explica, por si só, toda perda de disposição. Anemia, alterações do sono e depressão podem contribuir para o cansaço e precisam ser avaliadas, inclusive antes de a pessoa necessitar de diálise.1 Quando o desânimo persiste e o interesse pelas coisas diminui, essa mudança merece atenção, mesmo que os sintomas físicos já façam parte da rotina.2
O tratamento da depressão pode incluir psicoterapia e medicamentos. Para organizá-lo, é preciso considerar a função renal, os outros tratamentos e o que a pessoa está conseguindo realizar no cotidiano.2,3
O que mudou além do cansaço?
Fadiga, sono ruim, falta de apetite e dificuldade de concentração aparecem tanto na doença renal quanto na depressão. Não cabe ao paciente decidir sozinho qual delas está causando cada sintoma. A avaliação reúne a história, o exame clínico e as informações sobre o tratamento renal.1,2
Ajuda descrever mudanças em relação ao seu habitual. Há tristeza persistente, sensação de vazio ou perda de esperança? As atividades que ainda eram possíveis deixaram também de despertar interesse? O afastamento das pessoas aumentou? Questionários podem ajudar a organizar esses relatos, mas a pontuação, sozinha, não estabelece o diagnóstico.1,2
Considere uma situação ilustrativa: alguém já precisava descansar depois da hemodiálise, mas gostava de receber uma visita curta no dia seguinte. Nas últimas semanas, passou a recusar até esse encontro e perdeu o interesse em saber dos amigos. Esse relato acrescenta informação à queixa de cansaço; não confirma depressão por si só.
O médico também precisa investigar fatores físicos que possam estar piorando a disposição, como anemia e problemas de sono. Reconhecer uma depressão não encerra essa investigação.1
Como a psicoterapia pode caber na rotina renal
O diagnóstico, as restrições e o tempo dedicado aos atendimentos podem alterar planos, relações e a sensação de independência. Na psicoterapia, esses efeitos podem ser trabalhados junto do humor e de padrões de pensamento que aumentam o sofrimento.2
Na prática, o atendimento pode explorar o que está dificultando manter contato com outras pessoas e quais atividades continuam possíveis. No exemplo anterior, um primeiro passo poderia ser combinar um contato curto por telefone em um horário menos cansativo. O objetivo, os horários e o ritmo precisam fazer sentido para aquela pessoa; não se trata de exigir mais atividade independentemente das limitações clínicas.
No ensaio ASCEND, a terapia cognitivo-comportamental, ou TCC, foi oferecida no centro de hemodiálise. O estudo avaliou o conjunto da intervenção, não o efeito isolado de estratégias como a ligação usada no exemplo.4
O que os estudos mostram sobre antidepressivos?
Dois ensaios com sertralina estudaram situações diferentes: pessoas em hemodiálise e pessoas que não dependiam de diálise.
Nos dois estudos, a avaliação usou a escala QIDS, cuja pontuação vai de 0 a 27: quanto menor o resultado, menos intensos os sintomas medidos.4,5
Em hemodiálise, o ASCEND comparou sertralina e TCC durante 12 semanas. A fase de tratamento incluiu 120 participantes. Ao final, a análise estimou uma diferença de 1,84 ponto a favor da sertralina. Foi uma vantagem modesta, acompanhada de mais eventos adversos no grupo do medicamento. O ensaio era aberto, não tinha grupo sem tratamento e não avaliou quanto tempo o benefício persistia.4
Sem dependência de diálise, o CAST não encontrou vantagem da sertralina sobre placebo. O estudo sorteou 201 adultos com doença renal crônica nos estágios 3 a 5, sem dependência de diálise, e depressão maior para um dos dois grupos. Em 12 semanas, a pontuação diminuiu 4,1 pontos com sertralina e 4,2 com placebo, sem diferença significativa. Náuseas, vômitos e diarreia ocorreram com mais frequência entre quem recebeu sertralina.5
Essas médias não dizem quantas pessoas ficaram sem depressão nem representam uma porcentagem de melhora de cada participante.4,5
Os resultados respondem a perguntas diferentes, em populações e comparações distintas. O CAST não demonstra que nenhum antidepressivo possa ajudar pessoas com doença renal; o ASCEND não torna a sertralina sempre preferível à psicoterapia. Eles orientam a decisão e reforçam a necessidade de verificar o benefício obtido, em vez de presumir que a prescrição está funcionando.4,5
O psiquiatra precisa conhecer o tratamento renal
A função dos rins pode influenciar a escolha e a dose de medicamentos. Outras prescrições e mudanças recentes de saúde também importam. Com o consentimento do paciente, o psiquiatra e o nefrologista precisam compartilhar as informações relevantes para o tratamento.3
Para a consulta, reúna o que já estiver disponível:
- A lista dos medicamentos e suplementos que utiliza, incluindo doses e horários.
- Os resultados recentes dos exames renais e as orientações recebidas do nefrologista.
- Quando começaram as mudanças de humor e de interesse, com um exemplo do que ficou difícil.
- Se faz hemodiálise, os dias e horários das sessões e como costuma se sentir depois delas.
Não é necessário providenciar exames novos por conta própria para poder procurar ajuda. Se faltarem informações, os profissionais podem definir o que precisa ser obtido. Quando houver várias prescrições, a revisão do conjunto de medicamentos ajuda a esclarecer a função de cada um e o acompanhamento necessário.
Antes de sair, confirme quem deve receber a informação caso outro profissional mude um medicamento e quem procurar se surgir um efeito incômodo. Não ajuste doses nem suspenda o antidepressivo por conta própria.
Como reconhecer benefício sem exigir que todo cansaço desapareça
O acompanhamento pode observar o interesse, o sofrimento emocional e a participação nas atividades possíveis, além dos efeitos adversos e dos parâmetros clínicos necessários.3 Voltar a ter exatamente a energia de antes da doença renal não precisa ser a única medida de resultado.
Por exemplo, conseguir acompanhar uma visita com interesse, ainda que por pouco tempo, pode ser uma mudança relevante. Se o afastamento das pessoas e das atividades continua, relate isso também, junto das limitações físicas que permanecem. O artigo sobre como participar do tratamento da depressão desenvolve formas de descrever essas diferenças entre consultas.
Confusão que aparece de repente exige avaliação urgente. Desorientação súbita ou uma mudança abrupta na capacidade de pensar e falar não devem ser atribuídas à depressão.6 Risco imediato de autoagressão também requer atendimento de emergência, sem aguardar o retorno programado.7
Para o próximo atendimento, escolha uma dificuldade que gostaria de melhorar e descreva como ela se relaciona com os dias de tratamento renal.
Referências
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Address functional status & quality of life issues [Internet]. Bethesda: NIDDK; 2013 [citado 22 out 2026].
- Kidney Health Australia. Depression and chronic kidney disease [Internet]. Kidney Health Australia; jul 2025 [citado 22 out 2026].
- Kidney Disease: Improving Global Outcomes CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2024;105(Suppl 4S):S117–S314.
- Mehrotra R, Cukor D, Unruh M, Rue T, Heagerty P, Cohen SD, et al. Comparative efficacy of therapies for treatment of depression for patients undergoing maintenance hemodialysis: a randomized clinical trial. Ann Intern Med. 2019;170(6):369–379. doi:10.7326/M18-2229.
- Hedayati SS, Gregg LP, Carmody T, Jain N, Toups M, Rush AJ, et al. Effect of sertraline on depressive symptoms in patients with chronic kidney disease without dialysis dependence: the CAST randomized clinical trial. JAMA. 2017;318(19):1876–1890. doi:10.1001/jama.2017.17131.
- National Health Service. Sudden confusion (delirium) [Internet]. NHS; 2024 [atualizado 28 maio 2024; citado 22 out 2026].
- Brasil. Ministério da Saúde. Suicídio (prevenção) [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde [citado 22 out 2026].
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.