Estimulação magnética transcraniana na depressão resistente: quando considerar?
Postado em: 03/10/2026
Foto: Adindva1 / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.
A estimulação magnética transcraniana repetitiva, ou EMT, pode entrar na discussão quando a depressão não melhora suficientemente com o tratamento ou quando os efeitos adversos dificultam seu uso. A decisão exige rever o diagnóstico, as tentativas anteriores e a gravidade do quadro. Ter usado vários medicamentos, por si só, não define a indicação.1
É uma forma de estimular regiões do cérebro envolvidas na regulação do humor por meio de pulsos magnéticos. Na aplicação habitual, a pessoa permanece acordada e não recebe anestesia.2
Como é feita a EMT?
Uma bobina é posicionada junto ao couro cabeludo. Ela produz pulsos magnéticos que induzem pequenas correntes elétricas no tecido cerebral e influenciam a atividade de circuitos nervosos. Durante a aplicação, a pessoa pode perceber batidas ou pequenos toques na cabeça. O equipamento também produz ruído, e a proteção auditiva faz parte dos cuidados.2,3
A EMT é diferente da eletroconvulsoterapia, a ECT. Na ECT, uma corrente elétrica provoca uma crise convulsiva controlada, sob anestesia. A EMT habitual não tem esse objetivo e utiliza outro modo de estimulação.2 O artigo sobre eletroconvulsoterapia na depressão explica as indicações e os cuidados daquele procedimento.
O tratamento com EMT envolve uma sequência de aplicações e reavaliações. Como há diferentes formatos, pergunte à equipe quanto dura cada sessão e como as aplicações serão distribuídas ao longo do tratamento.1
Quando considerar essa alternativa?
Antes de escolher a próxima intervenção, é preciso entender o que aconteceu com as anteriores. Qual medicamento foi usado, por quanto tempo e com que regularidade? Houve alguma melhora? A tentativa terminou por falta de benefício ou por efeitos adversos? Essas histórias levam a decisões diferentes.1
Também importa rever condições que possam contribuir para os sintomas e confirmar o diagnóstico. As evidências discutidas aqui se referem principalmente à depressão maior unipolar; a depressão do transtorno bipolar exige uma avaliação própria.1
A EMT é uma das opções após resposta insuficiente. A diretriz canadense CANMAT considera, nessa discussão, tratamentos já realizados, tolerabilidade, preferência do paciente e acesso. Ela não estabelece que toda pessoa precise esgotar uma sequência idêntica de medicamentos antes de conversar sobre neuromodulação.1
Para quem ainda está tentando compreender a resposta à medicação, o texto antidepressivo não está funcionando detalha o que costuma ser revisto nessa etapa.
O que precisa ser informado antes de começar?
Leve o histórico dos tratamentos e a lista de medicamentos em uso. Informe antecedentes de convulsão, lesões ou doenças neurológicas, uso de álcool e outras substâncias e mudanças importantes no sono. Esses dados ajudam a avaliar segurança e podem influenciar a condução do tratamento.3
Dispositivos implantados e materiais metálicos também precisam ser identificados. Dizer apenas “tenho metal no corpo” não resolve a avaliação: o tipo de material ou dispositivo, sua localização e sua proximidade da bobina fazem diferença. Se tiver um documento com as especificações do implante, leve-o à consulta.3
Durante o tratamento, avise a equipe sobre alterações de medicação, noites muito mal dormidas e mudanças no consumo de substâncias. Não suspenda remédios para se preparar para a EMT por conta própria.3
O que os estudos permitem esperar?
Há evidência de que a EMT pode reduzir os sintomas depressivos, inclusive quando tratamentos anteriores não foram suficientes.1
Um estudo conhecido como THREE-D comparou dois formatos de estimulação em 414 adultos de 18 a 65 anos: EMT convencional de alta frequência e estimulação intermitente em rajadas teta, chamada iTBS. Os participantes tinham um episódio de depressão maior resistente ao tratamento ou não haviam tolerado ao menos dois antidepressivos naquele episódio.4
Ao final de quatro a seis semanas, 385 participantes foram avaliados: 192 com EMT convencional e 193 com iTBS. Resposta significava reduzir em pelo menos metade a pontuação de sintomas; remissão, atingir um nível mínimo de sintomas pela escala usada na pesquisa.4
| Resultado ao final do tratamento | EMT convencional | iTBS |
|---|---|---|
| Resposta | 47% | 49% |
| Remissão | 27% | 32% |
| Não atingiu o critério de resposta | 53% | 51% |
Percentuais arredondados; a última linha foi calculada pelo complemento da resposta. Resposta e remissão se sobrepõem e não devem ser somadas. Não atingir o critério de resposta pode incluir melhora parcial, inferior a 50%.4
Na avaliação principal, o formato mais breve, iTBS, atendeu ao critério de não inferioridade na redução dos sintomas. Isso significa que a diferença em relação ao comparador ficou dentro da margem que a pesquisa havia definido como aceitável. Os dois grupos receberam tratamentos ativos; não houve grupo placebo.4
O achado se aplica àqueles protocolos e participantes. Não demonstra superioridade da iTBS nem equivalência entre qualquer modalidade de EMT. Uma sessão mais curta também não significa que a depressão melhorará mais rapidamente. O estudo também não estabelece a eficácia de todos os cursos acelerados hoje divulgados.4
Ao discutir expectativas, vale perguntar qual protocolo está sendo considerado e que evidência existe para uma situação semelhante à sua. Uma porcentagem retirada de um estudo não funciona como previsão individual.
Como acompanhar os efeitos e a resposta?
Desconforto no local da estimulação e dor de cabeça estão entre os efeitos adversos mais comuns. Convulsões são raras, mas o risco exige avaliação prévia, aplicação adequada e equipe preparada para intercorrências.3
O acompanhamento deve registrar tanto os efeitos adversos quanto a evolução da depressão. Escalas podem ajudar a comparar sintomas ao longo do tempo; o relato sobre sono, interesse, trabalho e atividades habituais mostra o que mudou na vida diária.1,3
Se houver melhora, ainda será necessário discutir a continuidade do cuidado. Não se deve presumir que o benefício será permanente ou que todos precisarão do mesmo esquema de manutenção. Há estudos de aplicações de manutenção, mas a melhor forma de organizá-las ainda não está definida para todas as situações.3
Como conversar sobre a escolha?
Uma consulta pode começar com perguntas concretas: por que a EMT faz sentido neste momento? Quais alternativas também são razoáveis? Como será avaliada a resposta? O que será feito se não houver melhora, e qual é o plano depois do curso inicial?
A gravidade pode mudar a prioridade. Em determinadas situações, como depressão grave com psicose ou necessidade de resposta urgente, a ECT pode ser considerada mais cedo; não precisa vir obrigatoriamente depois de todas as outras opções.1 Risco imediato de autoagressão exige atendimento de urgência, sem esperar uma avaliação eletiva para EMT.
Na Genuine Mental Health, a avaliação da depressão resistente permite rever os tratamentos realizados e discutir as opções de cuidado pertinentes ao quadro.
Referências
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
- National Institute of Mental Health. Brain stimulation therapies. Revisado em mar 2024. Acesso em 3 out 2026.
- Trapp NT, Purgianto A, Taylor JJ, Singh MK, Oberman LM, Mickey BJ, et al. Consensus review and considerations on TMS to treat depression: a comprehensive update endorsed by the National Network of Depression Centers, the Clinical TMS Society, and the International Federation of Clinical Neurophysiology. Clin Neurophysiol. 2025;170:206–233. doi:10.1016/j.clinph.2024.12.015.
- Blumberger DM, Vila-Rodriguez F, Thorpe KE, Feffer K, Noda Y, Giacobbe P, et al. Effectiveness of theta burst versus high-frequency repetitive transcranial magnetic stimulation in patients with depression (THREE-D): a randomised non-inferiority trial. Lancet. 2018;391(10131):1683–1692. doi:10.1016/S0140-6736(18)30295-2. Errata: Lancet. 2018;391(10139):e24. doi:10.1016/S0140-6736(18)31323-0.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.