Lítio na depressão: por que usar sem ter transtorno bipolar?

Postado em: 02/10/2026

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Receber uma prescrição de lítio não significa necessariamente ter transtorno bipolar. Na depressão unipolar, que não faz parte de um transtorno bipolar, o lítio pode ser acrescentado ao antidepressivo para tentar ampliar uma resposta incompleta. A bula brasileira de Carbolitium e Carbolitium CR contempla esse uso adjuvante na depressão.1

Essa estratégia é chamada de potencialização: manter o antidepressivo e associar outro medicamento para tentar obter mais benefício.2

A receita e o diagnóstico respondem a perguntas diferentes

A indicação do medicamento descreve o que se pretende tratar. O diagnóstico depende da história clínica, incluindo a investigação de períodos de mania ou hipomania, e não pode ser deduzido pelo nome do remédio. Essa avaliação continua sendo necessária quando a depressão não melhora como esperado.2

Se essa dúvida surgiu depois da consulta, peça ao psiquiatra que esclareça a indicação. Saber se houve mudança na avaliação do diagnóstico ou se o objetivo é potencializar o antidepressivo ajuda a entender a proposta de tratamento.

Quando faz sentido discutir uma associação

Uma melhora parcial pode deixar problemas: a pessoa voltou ao trabalho, mas ainda enfrenta dificuldade para começar tarefas; ou a tristeza diminuiu, enquanto a perda de interesse continua. Antes de acrescentar um medicamento, o psiquiatra revê o tratamento feito, a resposta obtida e os efeitos adversos. Quando há benefício e boa tolerabilidade, a associação pode preservar esse ganho, buscando ampliar a resposta.2

Também entram na decisão a disposição para tomar mais um medicamento e a possibilidade de realizar o acompanhamento. Combinações podem aumentar os efeitos adversos e exigem uma discussão das alternativas com o especialista.3

O artigo sobre o que avaliar quando o antidepressivo não está funcionando apresenta o percurso mais amplo de revisão, ajuste, troca e associação.

O que se sabe sobre o benefício do lítio

A diretriz CANMAT para depressão maior, publicada em 2024, mantém o lítio como opção adjuvante de segunda linha. Reconhece evidência de eficácia, mas considera as limitações dos estudos avaliados e a necessidade de monitorar sua concentração no sangue. Essa classificação permite situá-lo entre as alternativas; não estabelece uma sequência obrigatória para cada paciente.2

O estudo LQD, publicado em 2025, distribuiu aleatoriamente 212 adultos com depressão unipolar resistente entre duas propostas: acrescentar lítio ou quetiapina ao antidepressivo. Os participantes haviam tido resposta insuficiente a pelo menos dois tratamentos antidepressivos no episódio atual.4

Ao longo de 52 semanas, o grupo destinado à quetiapina apresentou menor carga de sintomas depressivos no desfecho longitudinal. O tempo até a interrupção do medicamento por qualquer motivo não diferiu significativamente entre os grupos; esse resultado não demonstra que a tolerabilidade seja equivalente.4

O estudo foi aberto: participantes e profissionais conheciam o tratamento escolhido, o que pode influenciar expectativas e avaliações. Seus resultados favorecem a quetiapina naquela comparação e precisam ser considerados ao discutir as opções. Não determinam qual será a melhor escolha para uma pessoa específica nem respondem sobre depressão bipolar, excluída do ensaio.4

Uma pergunta útil na consulta é: “Por que, no meu caso, o lítio foi escolhido entre as possibilidades?”.

O acompanhamento faz parte da escolha

A litemia é o exame que mede a concentração de lítio no sangue. Como a margem entre níveis de tratamento e níveis tóxicos é estreita, o resultado ajuda a orientar o uso com segurança.1 Ele é interpretado com a resposta clínica e os efeitos adversos. A avaliação inclui função renal, tireoide e cálcio antes do início e durante o tratamento.3

O lítio é eliminado pelos rins e pode alterar o funcionamento da tireoide. Por isso, cansaço ou mudança de disposição precisam ser avaliados: podem estar relacionados à depressão, a efeitos do tratamento ou a alterações tireoidianas. O artigo sobre depressão e hipotireoidismo explica essa sobreposição.1

Há ainda interações com alguns anti-inflamatórios, diuréticos e remédios para pressão arterial. Informe os outros medicamentos usados, inclusive os comprados sem receita, e mudanças recentes de prescrição. Desidratação e infecções podem exigir reavaliação dos níveis de lítio.3

Tremor, sede, aumento da urina e náusea merecem ser relatados. Tremor intenso, confusão, sonolência acentuada, falta de coordenação ou vômitos e diarreia importantes podem ser sinais de toxicidade e exigem avaliação médica urgente.1,3 Não espere a próxima consulta programada se esses sinais aparecerem.

O guia de lítio no transtorno bipolar e seus exames aprofunda o acompanhamento. Alguns parâmetros de tratamento variam conforme a indicação; os valores apresentados naquele contexto não devem ser usados para ajustar uma prescrição na depressão unipolar.

Como perceber se a associação está ajudando

O acompanhamento precisa reunir o que mudou nos sintomas, nas atividades e na tolerabilidade. O objetivo pode ser descrito com situações que a pessoa reconheça: conseguir manter uma conversa sem se perder, retomar uma tarefa interrompida ou voltar a ter interesse por algo que antes apreciava. São exemplos para organizar o relato, não critérios de resposta por si sós.

Levar à consulta o que melhorou, o que continua difícil e o que apareceu após a associação ajuda a comparar benefício e incômodos. Relate as dificuldades para cumprir o plano de tratamento.3

Antes de começar, combine com o prescritor quais mudanças serão observadas, quais exames serão necessários e como entrar em contato diante de uma intercorrência. Ajustes e eventual retirada precisam de orientação; não altere a prescrição por conta própria.3

A avaliação da depressão resistente na Genuine Mental Health pode ajudar a revisar os tratamentos anteriores e discutir as próximas opções.

Referências

  1. Eurofarma. Carbolitium e Carbolitium CR (carbonato de lítio): bula para profissional da saúde. Versão Carbolitium_com rev_VPS_V08. Consultado em 2 out 2026.
  2. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. 2022. Recomendações 1.4.25–1.4.32 e 1.9.8–1.9.9. Consultado em 2 out 2026.
  4. Kerr-Gaffney J, Zenasni Z, Goldsmith K, Yaziji N, Jin H, Colasanti A, et al. Clinical and cost-effectiveness of lithium versus quetiapine augmentation for treatment-resistant depression in adults: LQD a pragmatic randomised controlled trial. Health Technol Assess. 2025;29(12):1–118. doi:10.3310/YQVF5347.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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