Metilfenidato ou lisdexanfetamina no TDAH adulto: o que orienta a escolha?
Postado em: 12/10/2026
Metilfenidato e lisdexanfetamina são opções de tratamento para adultos com TDAH. A escolha considera a melhora dos sintomas, os efeitos indesejados e os períodos do dia em que o benefício é necessário. A diretriz britânica NICE inclui ambos entre as opções iniciais para adultos e ressalta que a intensidade e a duração dos efeitos variam de uma pessoa para outra.1
Para comparar os dois, porém, é preciso saber qual apresentação de metilfenidato está sendo considerada. Um comprimido de liberação imediata e uma cápsula de liberação prolongada contêm o mesmo princípio ativo, mas o disponibilizam de formas diferentes. Isso ajuda a entender por que duas experiências com “metilfenidato” podem ter sido distintas.2
Princípio ativo, marca e formulação são informações diferentes
O princípio ativo é a substância usada no tratamento. A marca identifica um produto, e a formulação determina, entre outras características, como a substância é liberada após a administração.
Ritalina e Ritalina LA, por exemplo, contêm metilfenidato. A primeira apresentação é de liberação imediata; a segunda, de liberação prolongada. Na Ritalina LA, a concentração do medicamento no sangue apresenta dois picos, em momentos distintos. Esse perfil é chamado de bimodal.2 Dizer apenas “tomei Ritalina” deixa uma informação importante de fora da comparação.
A lisdexanfetamina, princípio ativo do Venvanse, é um pró-fármaco: o organismo precisa convertê-la em outra substância, a dexanfetamina, responsável por sua atividade. Essa conversão ocorre principalmente nas células do sangue. Portanto, seu funcionamento não depende apenas de uma cápsula que libera aos poucos uma substância já ativa.3
Essas diferenças ajudam a explicar os perfis dos medicamentos, mas não permitem prever qual produzirá o melhor resultado para uma pessoa. Também não se deve atribuir a todos os produtos de metilfenidato o perfil descrito para uma apresentação específica.
Início do efeito, duração no dia e avaliação do tratamento
Há três perguntas diferentes que costumam aparecer juntas na consulta: quando começo a perceber melhora, por quanto tempo ela permanece e quando teremos informações suficientes para avaliar a escolha.
O início do efeito é o intervalo entre tomar o medicamento e perceber benefício. A cobertura ao longo do dia corresponde aos períodos em que esse benefício ajuda nas atividades. Já a avaliação do tratamento reúne a experiência de vários dias, nas situações relevantes da rotina, juntamente com os efeitos adversos. Uma impressão favorável na primeira manhã não responde às três perguntas.
O modo de liberação do metilfenidato e a conversão da lisdexanfetamina ajudam a explicar a duração do efeito. Mas a curva de concentração no sangue não informa com exatidão por quanto tempo cada pessoa perceberá melhora da atenção.2,3
Considere uma situação ilustrativa: alguém passa a acompanhar melhor as reuniões pela manhã, mas continua se perdendo ao organizar as tarefas de casa no início da noite. Vale esclarecer se houve melhora real no primeiro período, quais dificuldades persistiram no segundo e como estava o sono. Esse relato é mais informativo do que dizer apenas que o remédio “funcionou pouco”.
Em outra situação, o benefício alcança o fim do dia, mas a pessoa passa a demorar muito para adormecer. A melhora nas atividades precisa ser avaliada junto desse prejuízo ao sono.
O que uma comparação entre os medicamentos consegue mostrar
Em um ensaio publicado em 2024, 44 adultos jovens com TDAH concluíram uma comparação entre lisdexanfetamina e PRC-063, uma formulação específica de metilfenidato de liberação prolongada. Cada participante recebeu os dois tratamentos, em períodos diferentes, com ordem sorteada. Após até 21 dias com cada tratamento, o desempenho foi avaliado em um simulador de direção.4
Os resultados na direção simulada foram comparáveis nas avaliações realizadas entre uma e 15 horas após a administração, incluindo a última medição. Isso não demonstra que Ritalina de liberação imediata tenha a mesma duração, nem que os dois medicamentos produzam resultados idênticos em todas as atividades ou em tratamentos prolongados.4
Na consulta, vale comparar o benefício das apresentações nas mesmas atividades e períodos do dia, junto dos efeitos indesejados.
Quando a resposta é insuficiente ou a tolerabilidade é ruim, experimentar outra opção pode fazer parte do plano médico.1 Antes de concluir que determinada substância “não funciona”, é necessário esclarecer qual apresentação foi usada, como foi conduzida a tentativa e o motivo de sua interrupção. Falta de benefício e dificuldade para tolerar um efeito adverso levam a discussões diferentes.
Sono, apetite e humor podem mudar a decisão
Os dois medicamentos podem provocar redução do apetite e dificuldade para dormir, além de alterar pressão arterial e frequência cardíaca. Na consulta, relate o que já existia antes do tratamento, o que apareceu depois e quando costuma ocorrer.2,3 Comparar porcentagens de efeitos adversos de estudos separados nas bulas, com populações e métodos diferentes, não estabelece qual será mais bem tolerado por um paciente.
Se o sono piorou, por exemplo, interessa relatar quando a dificuldade começou, o horário em que surge a sonolência e mudanças no uso de cafeína ou energéticos. O artigo sobre TDAH e sono em adultos aprofunda essa investigação. Não é necessário testar mudanças de horário por conta própria para produzir um relato útil.
A presença de ansiedade também não permite escolher automaticamente um dos dois. A avaliação considera sua intensidade, sua relação com o TDAH e o que acontece durante o tratamento. História de mania ou hipomania merece atenção específica, porque pode alterar o planejamento do uso de estimulantes.1 A relação entre TDAH e transtorno bipolar está detalhada em outro texto.
Dor no peito ou desmaio durante o tratamento exigem avaliação imediata. Mudanças importantes de comportamento, como aceleração incomum acompanhada de grande redução da necessidade de sono, também devem ser comunicadas prontamente ao médico.2,3
Como levar uma comparação útil à consulta
Leve o nome e a apresentação exata dos medicamentos já usados. Acrescente situações em que houve melhora, dificuldades que permaneceram e o momento dos efeitos indesejados. O quadro abaixo ajuda a organizar essa conversa.
| Questão prática | O que comparar | O que isso não permite concluir sozinho |
|---|---|---|
| O benefício não alcança uma atividade importante no fim do dia | Apresentação utilizada, períodos de melhora, atividade em questão e sono | Que é preciso aumentar a dose ou tomar uma dose extra |
| Uma tentativa anterior foi interrompida | Benefício percebido, efeito adverso e motivo da interrupção | Que todas as apresentações da substância terão o mesmo resultado |
| A atenção melhorou, mas dormir ficou mais difícil | Quando a insônia surgiu, padrão anterior de sono e horário dos sintomas | Que o outro estimulante necessariamente resolverá o problema |
| A experiência foi diferente da relatada por um conhecido | Formulação, objetivos, condições de saúde e resposta de cada pessoa | Que o medicamento do conhecido é superior para você |
O guia de medicamentos para TDAH em adultos detalha a avaliação antes da prescrição e o acompanhamento durante o tratamento. Ajustes de medicamento, dose ou horário devem ser combinados com o psiquiatra.
Referências
1. National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NICE guideline NG87 [Internet]. London: NICE; 2018 [citado 12 out 2026]. Disponível em: Recomendações sobre escolha e acompanhamento do tratamento.
2. Novartis Biociências SA. Ritalina e Ritalina LA (cloridrato de metilfenidato): bula do profissional de saúde [Internet]. Bula aprovada pela Anvisa em 14 abr 2026 [citado 12 out 2026]. Disponível em: Bula profissional disponibilizada pela Novartis.
3. Takeda Pharma Ltda. Venvanse (dimesilato de lisdexanfetamina): bula do profissional de saúde [Internet]. VEN_0226_0326_VPS. Bula aprovada pela Anvisa em 4 mar 2026 [citado 12 out 2026]. Disponível em: Bula profissional disponibilizada pela Takeda.
4. Madaan V, Bhaskar S, Donnelly GAE, Cox DJ. A randomized, phase 3, double-blind, crossover comparison of multilayer, extended-release methylphenidate (PRC-063), and lisdexamfetamine in the driving performance of young adults with ADHD. J Atten Disord. 2024;28(6):947–956. doi:10.1177/10870547241226634. Resumo no PubMed.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.