Primeiro episódio psicótico: sinais e o que a família pode fazer

Postado em: 17/09/2026

Homem sentado leva a mão ao ouvido e olha para uma cadeira vazia enquanto uma familiar se aproxima

Ouvir vozes que outras pessoas não ouvem, sentir-se perseguido sem que haja evidências disso ou apresentar uma fala difícil de acompanhar são alterações que podem ocorrer em um episódio psicótico, também chamado de “surto psicótico”. Psicose é um conjunto de sintomas que afeta a percepção e a interpretação da realidade. Um primeiro episódio não significa, por si só, um diagnóstico de esquizofrenia.1

Quando essas mudanças aparecem, a orientação é procurar avaliação sem demora. Não é preciso esperar que a pessoa fique agitada ou que o quadro se agrave para buscar ajuda.2

Quais sinais podem aparecer no primeiro episódio psicótico?

As manifestações variam. Algumas pessoas ficam assustadas e desconfiadas; outras se recolhem e falam pouco sobre o que estão vivendo. Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • Alucinações: ouvir vozes, ver imagens ou ter outras percepções sem que haja uma fonte externa para aquela percepção.
  • Ideias delirantes: convicções que não correspondem à realidade e persistem apesar de evidências contrárias. A pessoa pode, por exemplo, acreditar que mensagens da televisão são dirigidas especialmente a ela.
  • Desorganização do pensamento e da fala: as ideias perdem a ligação entre si, e a conversa pode ficar difícil de compreender.1

Também podem surgir mudanças importantes no comportamento, no cuidado pessoal e na capacidade de trabalhar ou estudar. Às vezes, a família percebe antes um afastamento social, alterações do sono ou uma desconfiança crescente. Esses sinais iniciais são inespecíficos: isoladamente, não confirmam psicose.1

A avaliação considera o contexto e as referências culturais da pessoa. Uma crença incomum para um familiar não basta para definir um delírio.2

Quando procurar uma emergência?

Algumas situações exigem atendimento imediato, e não uma consulta de rotina:

  • intenção de se ferir ou ferir alguém, ou vozes que dão ordens nesse sentido;
  • agitação intensa ou comportamento que coloque a pessoa ou quem está próximo em perigo;
  • piora rápida das alucinações ou desorganização acentuada, com fala que deixa de fazer sentido;
  • confusão súbita, como não reconhecer onde está ou não conseguir manter a atenção;3
  • imobilidade ou redução acentuada da resposta ao ambiente, ou incapacidade de manter a ingestão de líquidos e alimentos, com risco à saúde.4

A confusão que surge de repente pode ter uma causa clínica, como infecção, alteração da glicose ou efeito de medicamentos e substâncias. Não deve ser atribuída automaticamente a um transtorno psiquiátrico.5

No Brasil, procure um pronto-socorro ou uma UPA. Se houver risco imediato ou não for possível chegar ao atendimento com segurança, ligue para o SAMU, no 192. A equipe orienta os próximos passos e avalia a necessidade de enviar uma ambulância.6

Como conversar sem aumentar o medo ou o conflito?

Escolha um ambiente tranquilo, reduza as distrações e fale com frases curtas, em tom calmo. Dê espaço para a pessoa explicar o que está acontecendo, sem cercá-la ou tocá-la de surpresa. Ridicularizar, interrogar ou tentar vencer uma discussão sobre suas crenças pode dificultar a conversa.7

É possível acolher o sofrimento sem confirmar a crença como um fato.8 Diante de alguém que se sente perseguido, uma resposta possível seria:

“Não estou percebendo isso, mas vejo que você está com medo. Quero ajudar você a se sentir seguro e procurar atendimento.”

O foco é reconhecer o medo e oferecer ajuda, não exigir que a pessoa admita estar doente.8

Se ela recusar atendimento, procure orientação de um serviço de saúde e relate o que observou. Em uma situação de risco, não tente resolver o impasse por meio de discussão ou contenção física por conta própria: peça ajuda à emergência.6, 8

O que a avaliação precisa investigar?

Os sintomas psicóticos podem ocorrer na esquizofrenia, em episódios de mania ou depressão grave e em situações relacionadas a substâncias, medicamentos ou doenças clínicas. A avaliação procura esclarecer o que está causando os sintomas.1

O profissional investiga a evolução dos sintomas, o sono, o humor, as substâncias e medicamentos utilizados e a saúde física. Exame clínico e, quando indicados, exames complementares também fazem parte dessa investigação.2

Se houver redução marcante da necessidade de dormir, aumento de energia e comportamento muito diferente do habitual, vale consultar também o artigo sobre sinais de mania e quando procurar atendimento urgente. Esses sintomas ajudam a compor a avaliação, mas não definem sozinhos o diagnóstico.9

Onde buscar ajuda e o que levar ao atendimento?

Sem risco imediato, procure avaliação psiquiátrica o quanto antes. No SUS, o CAPS da região pode realizar o primeiro acolhimento sem agendamento; a UBS também pode orientar o acesso à rede. Os horários e a estrutura variam entre os serviços.2, 10

Se não conseguir acesso rápido, procure acolhimento no CAPS ou orientação em um serviço de urgência para definir onde a avaliação pode ser feita.2, 10

Leve uma descrição breve das mudanças: quando começaram, exemplos do que a pessoa disse ou fez, como tem dormido e o que deixou de conseguir fazer. Informe os medicamentos em uso e o consumo ou a interrupção recente de álcool e outras substâncias. Relatos de familiares ajudam, mas a pessoa também precisa ser ouvida.2

A avaliação em psiquiatria na Genuine Mental Health é uma opção para situações sem risco imediato. Havendo sinais de emergência, não espere por um horário ambulatorial.

O cuidado continua depois da primeira avaliação

O acompanhamento pode reunir tratamento médico, apoio psicológico, orientação à família e ajuda para retomar estudos, trabalho e atividades cotidianas. No estudo RAISE, realizado nos Estados Unidos com pessoas no início de quadros do espectro da esquizofrenia, um programa integrado de cuidado trouxe maior melhora dos sintomas e da qualidade de vida do que o atendimento habitual.11

O plano precisa acompanhar os objetivos de cada pessoa. Para a família, isso inclui saber quem contatar se os sintomas piorarem e apoiar a participação da pessoa nas decisões sobre o tratamento.2

Referências

  1. National Institute of Mental Health. Understanding psychosis [Internet]. Bethesda: NIMH; 2023 [citado 17 set 2026].
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Psychosis and schizophrenia in adults: prevention and management. CG178 — Recommendations [Internet]. London: NICE; 2014 [citado 17 set 2026].
  3. National Health Service. Hallucinations and hearing voices [Internet]. 2025 [citado 17 set 2026].
  4. Cleveland Clinic. Catatonia [Internet]. 2022 [citado 17 set 2026].
  5. National Health Service. Sudden confusion (delirium) [Internet]. [citado 17 set 2026].
  6. Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192 [Internet]. [citado 17 set 2026].
  7. NSW Health. How can I communicate with someone experiencing psychosis? [Internet]. 2023 [citado 17 set 2026].
  8. Mental Health First Aid International. Psychosis: mental health first aid guidelines [Internet]. Versão 2.3. 2022 [citado 17 set 2026].
  9. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. [citado 17 set 2026].
  10. Brasil. Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial [Internet]. [citado 17 set 2026].
  11. Kane JM, Robinson DG, Schooler NR, Mueser KT, Penn DL, Rosenheck RA, et al. Comprehensive versus usual community care for first-episode psychosis: 2-year outcomes from the NIMH RAISE Early Treatment Program. Am J Psychiatry. 2016;173(4):362-72. doi:10.1176/appi.ajp.2015.15050632.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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