T3 no tratamento da depressão: por que pode ser considerado mesmo sem hipotireoidismo?

Postado em: 18/10/2026

Modelo tridimensional da molécula de triiodotironina, o hormônio T3.

Um exame de tireoide normal não impede que o psiquiatra considere T3 para uma depressão que não melhorou suficientemente. Nessa situação, a proposta é associá-lo ao antidepressivo para tentar ampliar a resposta — uma estratégia chamada potencialização. Isso não significa que tenha sido descoberta uma deficiência hormonal escondida ou que seja necessário “otimizar” exames normais.¹˒²

A decisão depende do tratamento já realizado, das alternativas disponíveis e das condições de saúde. T3 pode ser uma opção em acompanhamento especializado; não é o próximo passo obrigatório para toda pessoa que continua deprimida.¹

T3 e T4 são medicamentos diferentes

T3 é a sigla de triiodotironina. A liotironina é sua forma utilizada como medicamento. Já a levotiroxina corresponde ao T4, outro hormônio tireoidiano. Os nomes parecidos não tornam um substituto automático do outro.³

Quando existe hipotireoidismo, o objetivo da reposição é tratar a falta de hormônio. Na potencialização da depressão, a finalidade é melhorar o quadro depressivo, inclusive em pessoas sem essa deficiência. São decisões distintas. Quem recebeu uma proposta de T3 não deve trocar a levotiroxina que já usa nem acrescentar hormônios por conta própria. A relação entre doença tireoidiana e humor está detalhada no artigo sobre depressão e hipotireoidismo.¹˒³

Por que considerar essa associação agora?

Antes de acrescentar um medicamento, é necessário reconstruir o que aconteceu com os anteriores: houve alguma melhora, o tempo de uso foi suficiente, os efeitos adversos limitaram o tratamento ou ocorreram interrupções? Também importa rever o diagnóstico e outras condições que possam contribuir para a persistência dos sintomas. Essa avaliação orienta a escolha entre manter, trocar ou associar tratamentos.²

A diretriz CANMAT mantém o T3 entre as opções adjuvantes de segunda linha para depressão maior em adultos. Em geral, são consideradas quando as opções de primeira linha não foram adequadas ou não estão disponíveis. A base de estudos controlados é relativamente antiga e inclui amostras pequenas, sobretudo com antidepressivos tricíclicos. Há estudos com outros antidepressivos, mas o conjunto não permite apontar T3 como a melhor associação para todas as pessoas.²

Para entender a etapa que precede essa escolha, veja o que revisar quando o antidepressivo não está funcionando. Este artigo trata da depressão unipolar; o planejamento da depressão bipolar é outro.

Quanto o T3 ajudou nos estudos?

Uma etapa do STAR*D comparou a associação de T3 e de lítio em 142 adultos com depressão maior, após resultados insatisfatórios ou intolerância nas duas etapas anteriores de tratamento. Foram 73 participantes no grupo T3 e 69 no grupo lítio, acompanhados por até 14 semanas.⁴

Resultado T3 associado ao tratamento Lítio associado ao tratamento
Atingiram remissão 24,7% 15,9%
Interromperam por efeitos adversos 9,6% 23,2%

Remissão significava atingir uma pontuação baixa na escala de depressão utilizada, a HAM-D. Aproximadamente um em cada quatro participantes do grupo T3 chegou a esse resultado. Não atingir remissão não significa necessariamente não ter melhorado.⁴

A diferença nas taxas de remissão não foi estatisticamente significativa: o estudo não demonstrou que T3 fosse superior ao lítio. A interrupção por efeitos adversos foi menor com T3. Como não havia grupo placebo e os participantes já haviam passado por tratamentos anteriores, esses percentuais não são uma previsão individual de resposta.⁴

Uma revisão sistemática publicada em julho de 2026 reuniu seis ensaios de T3 e não demonstrou uma taxa de resposta significativamente maior que a dos grupos de controle. Nessa revisão, resposta significava uma redução de pelo menos 50% dos sintomas, o que não exige necessariamente remissão. Como havia poucos dados e a estimativa foi imprecisa, o tamanho do benefício continua incerto.⁵

O artigo sobre lítio na depressão unipolar aprofunda essa outra opção de potencialização.

Acompanhar a depressão e os efeitos do hormônio

O acompanhamento reúne sintomas, funcionamento cotidiano, tolerabilidade e exames da tireoide. Antes de iniciar, o médico precisa conhecer o histórico clínico, especialmente problemas cardíacos e fatores relacionados à saúde óssea. A frequência dos retornos e dos exames é definida conforme essa avaliação e a evolução do tratamento.⁶

O excesso de hormônio pode favorecer alterações do ritmo cardíaco e perda de massa óssea. Insônia, tremor, inquietação e intolerância ao calor também podem aparecer. Sentir-se mais acelerado não deve ser interpretado automaticamente como melhora da depressão.³

Para tornar o retorno mais esclarecedor, observe mudanças que tenham significado na sua vida. Você voltou a se interessar por alguma atividade? Consegue iniciar tarefas antes abandonadas? O sono ficou melhor ou pior? Por exemplo, recuperar a disposição para preparar uma refeição é uma informação diferente de passar a noite inquieto, ainda sem interesse por nada. Esse contraste é ilustrativo; a interpretação depende do conjunto dos sintomas.²˒⁶

Dor no peito ou batimentos rápidos ou irregulares exigem contato médico imediato; não espere a consulta programada. Se os sintomas forem intensos ou vierem com falta de ar, desmaio ou mal-estar importante, procure atendimento de urgência. Outros efeitos novos, como nervosismo ou suor excessivo, também devem ser comunicados quando intensos ou persistentes.⁷

Leve a lista completa de medicamentos e suplementos. Se estiver recebendo cetamina, informe as duas equipes: a bula norte-americana da liotironina descreve possível aumento importante da pressão e da frequência cardíaca nessa combinação, com necessidade de monitorização. Essa informação não quantifica o risco da escetamina subcutânea nem estabelece, por si só, uma contraindicação absoluta.³

O que definir antes de começar

Antes de começar, você pode perguntar ao prescritor:

  • Por que o T3 foi considerado neste momento, em relação às outras alternativas?
  • Que melhora será acompanhada e quando o resultado será reavaliado?
  • Quais exames serão necessários e como relatar efeitos que surjam antes do retorno?

Essas respostas ajudam a entender a proposta e a participar da decisão.¹

A continuidade depende do benefício observado, dos efeitos adversos e da segurança ao longo do tempo. Mantenha o uso conforme a prescrição e combine qualquer ajuste ou retirada com o médico. A meta é melhorar a depressão e recuperar atividades, sem confundir esse objetivo com emagrecimento ou alteração de exames por iniciativa própria.⁶˒⁷

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. Recommendations. NG222. London: NICE; 2022 [citado em 18 out. 2026]. Recomendação 1.9.9.

2. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.

3. Pfizer. Cytomel (liothyronine sodium): prescribing information. DailyMed. Revisão de abr. 2025; registro atualizado em 18 maio 2026 [citado em 18 out. 2026]. Informação de prescrição norte-americana.

4. Nierenberg AA, Fava M, Trivedi MH, Wisniewski SR, Thase ME, McGrath PJ, et al. A comparison of lithium and T(3) augmentation following two failed medication treatments for depression: a STAR*D report. Am J Psychiatry. 2006;163(9):1519–1530. doi:10.1176/ajp.2006.163.9.1519.

5. Hsu TW, Hsu CW, Thompson T, Carvalho AF, Stubbs B, Tseng PT, et al. Reappraising lithium, triiodothyronine and second-generation antipsychotic augmentation treatment for major depression: a systematic review and meta-analysis with bias-adjustment analyses. BMJ Ment Health. 2026;29(1):e302656. doi:10.1136/bmjment-2026-302656.

6. Touma KTB, Zoucha AM, Scarff JR. Liothyronine for depression: a review and guidance for safety monitoring. Innov Clin Neurosci. 2017;14(3–4):24–29.

7. American Society of Health-System Pharmacists. Liothyronine. MedlinePlus Drug Information. Revisão de 15 jan. 2018 [citado em 18 out. 2026].

Imagem: Jynto. CC0 1.0.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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