Crises de raiva desproporcionais: o que é transtorno explosivo intermitente?

Postado em: 02/11/2026

Homem visto de costas, com a mão fechada contra uma parede.

No transtorno explosivo intermitente (TEI), a pessoa apresenta episódios recorrentes de agressividade impulsiva, com intensidade muito maior do que a situação justificaria. Podem ocorrer agressões verbais, destruição de objetos ou ataques físicos, com prejuízos para as relações, o trabalho e a própria pessoa. O diagnóstico depende da avaliação desse padrão ao longo do tempo.1

Sentir raiva, discordar ou reclamar não estabelece um transtorno. A raiva é uma emoção; ameaçar, empurrar ou quebrar um objeto são condutas. Mesmo sem ferimentos, uma explosão pode provocar medo e danos importantes.1

O que a avaliação procura esclarecer

“Perdi o controle” descreve uma experiência, mas não explica sozinho o que aconteceu. No TEI, as explosões são impulsivas, não planejadas para obter dinheiro, exercer poder ou intimidar alguém. Uma agressão preparada para obrigar alguém a fazer algo não é explicada automaticamente por esse diagnóstico. Essa distinção depende do contexto e não pode ser resolvida apenas pelo relato de quem agrediu.2

O profissional examina como os episódios começam, sua frequência, as consequências e o que ocorre entre eles. Também investiga condições clínicas, outros transtornos e uso de álcool ou drogas que possam explicar ou agravar as reações. A avaliação pode incluir exame físico e exames complementares quando houver indicação.3

Irritabilidade aparece em diferentes situações. Por exemplo, as dificuldades de regulação emocional no TDAH não significam, por si, que exista TEI.1,3

Trabalhar o que acontece antes da agressão

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) ajuda a examinar a sequência que antecede uma explosão: o acontecimento, o significado atribuído a ele, o aumento da tensão e a reação.4

Às vezes, a interpretação surge muito depressa: “está me desrespeitando de propósito”. O terapeuta ajuda a examinar em que essa conclusão se baseia e como ela influenciou a reação. Sinais como tensão muscular, aceleração do coração ou aumento do volume da voz também podem ajudar a reconhecer a escalada. O objetivo é aprender a percebê-la antes de chegar à agressão.4

Conforme a dificuldade identificada, o trabalho pode envolver uma pausa planejada, formas de expressar discordância e resolução de problemas. Entre sessões, a pessoa pratica o que foi combinado e depois revê com o terapeuta onde conseguiu usar a habilidade e onde encontrou dificuldade. Respirar ou se afastar por alguns minutos pode integrar esse trabalho; uma técnica isolada não representa todo o tratamento.4

O que os estudos de psicoterapia mostraram

Um ensaio piloto com 45 adultos comparou 12 semanas de TCC individual ou em grupo com uma lista de espera. Os dois formatos reduziram medidas de agressividade e raiva em comparação com a espera, e os benefícios foram mantidos no acompanhamento de três meses.5

Outro estudo, publicado em 2022, comparou TCC com psicoterapia de apoio, uma comparação mais exigente do que esperar sem receber a intervenção. Quarenta e quatro adultos completaram 12 sessões individuais; houve avaliações ao final do tratamento e três meses depois. Embora os participantes dos dois tratamentos tendessem a melhorar, a TCC produziu maior redução do comportamento agressivo e da agressividade nas relações.6

Esses ensaios sustentam o uso da TCC para TEI, mas estudaram amostras pequenas e acompanharam os participantes por poucos meses. Também não demonstram que todos os componentes da terapia tenham o mesmo efeito quando usados separadamente.5,6

Quando considerar medicamentos

Medicamentos podem ser considerados conforme a avaliação psiquiátrica. Um ensaio de 12 semanas comparou fluoxetina com placebo em 100 pessoas que preenchiam critérios de pesquisa para TEI e também tinham transtorno de personalidade. A fluoxetina reduziu medidas de agressividade e irritabilidade; 46% dos participantes que a receberam atingiram remissão completa ou parcial dos comportamentos agressivos impulsivos, segundo a definição do estudo.7

Considerando todo o grupo que recebeu fluoxetina, 29% atingiu remissão completa. O percentual de 46% inclui também a remissão parcial. Os demais não podem ser classificados automaticamente como “não respondedores”, pois melhora e remissão são medidas distintas.7

O resultado apoia uma possibilidade de tratamento para pessoas com TEI; não transforma fluoxetina em indicação automática para qualquer crise de raiva. A escolha deve considerar a avaliação completa, os efeitos adversos e a resposta ao longo do acompanhamento, sem iniciar ou ajustar a medicação por conta própria.3,7

Como reconhecer uma mudança relevante

A evolução pode ser observada na frequência dos episódios, em sua intensidade e nos danos provocados. Conseguir expressar uma discordância sem ameaçar ou destruir objetos é um exemplo de objetivo concreto. A pessoa ainda pode sentir raiva; o que se procura modificar é a resposta agressiva e suas consequências.5,6

Quem sofre as agressões não deve assumir a tarefa de impedir cada explosão ou testar se o tratamento funcionou. Diante de ameaça ou agressão em curso, a prioridade é buscar proteção e ajuda emergencial, sem insistir em exercícios de comunicação naquele momento. Um diagnóstico não justifica violência nem retira o direito de estabelecer limites.3

A avaliação do tratamento deve considerar o que mudou fora das sessões. Se as explosões e os prejuízos persistem, é necessário rever o plano com o profissional.

Referências

  1. Mayo Clinic Staff. Intermittent explosive disorder: symptoms and causes [Internet]. Mayo Clinic; 2024 Jan 6 [citado 2 nov 2026]. Disponível em: Mayo Clinic.
  2. American Psychiatric Association. What are disruptive, impulse-control and conduct disorders? [Internet]. Washington (DC): APA; 2024 [citado 2 nov 2026]. Disponível em: American Psychiatric Association.
  3. Mayo Clinic Staff. Intermittent explosive disorder: diagnosis and treatment [Internet]. Mayo Clinic; 2024 Jan 6 [citado 2 nov 2026]. Disponível em: Mayo Clinic.
  4. Reilly PM, Shopshire MS. Anger management for substance use disorder and mental health clients: a cognitive-behavioral therapy manual. Updated 2019. Rockville (MD): Substance Abuse and Mental Health Services Administration; 2019. Publication No. PEP19-02-01-001. Disponível em: SAMHSA.
  5. McCloskey MS, Noblett KL, Deffenbacher JL, Gollan JK, Coccaro EF. Cognitive-behavioral therapy for intermittent explosive disorder: a pilot randomized clinical trial. J Consult Clin Psychol. 2008;76(5):876–86. doi: 10.1037/0022-006X.76.5.876.
  6. McCloskey MS, Chen EY, Olino TM, Coccaro EF. Cognitive-behavioral versus supportive psychotherapy for intermittent explosive disorder: a randomized controlled trial. Behav Ther. 2022;53(6):1133–46. doi: 10.1016/j.beth.2022.05.001.
  7. Coccaro EF, Lee RJ, Kavoussi RJ. A double-blind, randomized, placebo-controlled trial of fluoxetine in patients with intermittent explosive disorder. J Clin Psychiatry. 2009;70(5):653–62. doi: 10.4088/JCP.08m04150.

Imagem ilustrativa: adaptação com IA a partir de fotografia de Nicola Barts / Pexels.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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