Depois da ECT: como manter a melhora da depressão?
Postado em: 02/11/2026
Quando as sessões iniciais de eletroconvulsoterapia (ECT) estão terminando, é comum surgir a dúvida: se a depressão melhorou, por que continuar o tratamento? Porque aliviar o episódio e evitar que ele volte são objetivos diferentes. Medicamentos, psicoterapia e, em algumas situações, novas sessões de ECT podem fazer parte da etapa seguinte.1
A necessidade de continuar não apaga o resultado alcançado. Voltar a se alimentar melhor, tomar banho sem tanto esforço ou conseguir se interessar por alguém são mudanças que merecem ser reconhecidas. Também importa identificar o que ainda não melhorou: ter menos tristeza, por exemplo, não significa necessariamente que a pessoa já conseguiu retomar suas atividades.
Se a dúvida é sobre o procedimento em si, o guia de eletroconvulsoterapia na depressão explica as sessões, suas indicações e os efeitos na memória.
Por que ainda pode haver medicação
Depois da resposta à ECT, a escolha dos medicamentos considera o histórico de tratamentos, a resposta anterior, outras condições de saúde e a tolerabilidade. Na depressão unipolar — aquela que não faz parte de um transtorno bipolar —, uma possibilidade é associar lítio ao antidepressivo. Um consenso internacional de especialistas publicado em 2026 destaca essa estratégia e a necessidade de ajustar o plano ao risco clínico.2
Mesmo quando foram necessárias sessões de ECT para melhorar, medicamentos podem ser propostos para sustentar a resposta obtida. Não significa que um remédio antes insuficiente passará obrigatoriamente a funcionar, nem que todas as pessoas precisarão da mesma combinação.1,2
O uso de lítio na depressão unipolar exige acompanhamento próprio, incluindo exames. Se a depressão faz parte de um transtorno bipolar, a seleção dos medicamentos é diferente; os resultados descritos a seguir não definem um esquema para bipolaridade.
Quando novas sessões entram no plano
A ECT de continuação é realizada depois da resposta ao curso inicial, com o objetivo de sustentar a melhora. O termo manutenção costuma se referir ao uso mais prolongado. A organização e a terminologia variam entre serviços; a frequência e a duração são individualizadas. Ter apresentado retorno dos sintomas após ECT em outra ocasião é uma das informações que podem favorecer essa proposta.1
As sessões adicionais podem ser espaçadas e ajustadas conforme a evolução. Isso é diferente de manter indefinidamente a frequência do tratamento inicial. O benefício esperado precisa ser considerado junto dos efeitos adversos e das condições da pessoa para prosseguir.2
Dois estudos ajudam a dimensionar essa decisão, mas fizeram comparações distintas.
No CORE, 201 pessoas com depressão unipolar que haviam alcançado remissão após ECT foram distribuídas entre sessões de continuação e a combinação de lítio com nortriptilina. No estudo, remissão indicava uma redução acentuada dos sintomas, até um nível baixo na escala de avaliação. A tabela apresenta os resultados de seis meses dos 184 participantes que receberam o tratamento e tiveram ao menos uma avaliação posterior:3
| Resultado em seis meses | ECT de continuação | Lítio e nortriptilina |
|---|---|---|
| Apresentaram recaída | 37,1% | 31,6% |
| Permaneceram em remissão até o final | 46,1% | 46,3% |
| Saíram do estudo | 16,8% | 22,1% |
Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos no tempo até a recaída. Isso não comprova que as estratégias sejam equivalentes. A tabela também separa abandono de recaída: quem saiu do estudo não pode ser contado automaticamente como alguém que voltou a adoecer.3
Já o PRIDE avaliou 120 pessoas idosas em remissão. Todas receberam venlafaxina e lítio; um dos grupos também recebeu ECT de continuação, com sessões adicionais orientadas pelos sintomas. Em 24 semanas, esse grupo teve, em média ajustada, 4,2 pontos a menos na escala de Hamilton de 24 itens, que mede a intensidade da depressão. Nessa escala, pontuação menor significa menos sintomas.4
Na população estudada pelo PRIDE, o resultado favoreceu acrescentar ECT à medicação. Essa diferença média na escala, porém, não é uma taxa de remissão nem prevê o resultado de uma pessoa específica. Os números do CORE e do PRIDE não devem ser comparados como se viessem do mesmo experimento.
O que a psicoterapia pode trabalhar nessa etapa
Depois de um episódio grave, podem persistir receio de voltar ao trabalho, afastamento de pessoas próximas ou dificuldade de reconhecer uma piora sem interpretar qualquer dia ruim como recaída. Esses são exemplos de temas que podem ser trabalhados na psicoterapia, conforme a necessidade.
O consenso de 2026 inclui a psicoterapia como complemento após a ECT. Sua indicação não substitui a avaliação da necessidade de medicamentos ou sessões adicionais.2
A melhora do humor e a memória precisam ser avaliadas separadamente
Considere uma situação ilustrativa: alguém voltou a preparar o café da manhã e a conversar com a família, mas continua esquecendo informações recentes. Reconhecer o benefício sobre a depressão não exige minimizar essa dificuldade. Ela precisa ser descrita e avaliada, sem atribuição automática à ECT ou à própria doença.5
Há diferenças entre dificuldade para guardar informações novas e perda de lembranças pessoais anteriores ao tratamento. A aprendizagem recente tende a se recuperar após o curso de ECT, quando se observam médias de grupos; algumas lacunas autobiográficas podem persistir. Uma média favorável não exclui prejuízo relevante para uma pessoa.5
Relatos do cotidiano e avaliações clínicas se complementam. Quando a memória interfere em tarefas ou causa sofrimento, a equipe pode precisar rever o tratamento e investigar a dificuldade. Não é necessário esperar que a queixa seja muito intensa para comunicá-la.5
Antes de encerrar a etapa inicial, deve ficar definido quem acompanhará a depressão e como comunicar piora ao serviço responsável. Sono, interesse e funcionamento ajudam a avaliar a evolução, mas um dia isolado não confirma recaída. Piora importante ou pensamentos de morte exigem contato prontamente; risco imediato de se machucar exige atendimento de emergência, sem aguardar a consulta marcada.6
O plano posterior à ECT não precisa permanecer igual só porque foi o primeiro proposto. Novos ganhos, sintomas persistentes ou efeitos adversos podem justificar ajustes. O acompanhamento serve justamente para decidir o que ainda ajuda e o que precisa mudar.
Referências
- Royal College of Psychiatrists. Electroconvulsive therapy (ECT) [Internet]. London: RCPsych; [citado 2 nov 2026]. Disponível em: página institucional.
- Rovers JJE, van Eijndhoven PFP, Abbot C, Argyelan M, Bouckaert F, Brunoni AR, et al. A global Delphi-based expert consensus on relapse prevention strategies following successful electroconvulsive therapy for major depressive disorder. Am J Psychiatry. 2026;183(6):401–8. doi: 10.1176/appi.ajp.20250641.
- Kellner CH, Knapp RG, Petrides G, Rummans TA, Husain MM, Rasmussen K, et al. Continuation electroconvulsive therapy vs pharmacotherapy for relapse prevention in major depression: a multisite study from the Consortium for Research in Electroconvulsive Therapy (CORE). Arch Gen Psychiatry. 2006;63(12):1337–44. doi: 10.1001/archpsyc.63.12.1337.
- Kellner CH, Husain MM, Knapp RG, McCall WV, Petrides G, Rudorfer MV, et al. A novel strategy for continuation ECT in geriatric depression: phase 2 of the PRIDE study. Am J Psychiatry. 2016;173(11):1110–8. doi: 10.1176/appi.ajp.2016.16010118.
- Porter RJ, Baune BT, Morris G, Hamilton A, Bassett D, Boyce P, et al. Cognitive side-effects of electroconvulsive therapy: what are they, how to monitor them and what to tell patients. BJPsych Open. 2020;6(3):e40. doi: 10.1192/bjo.2020.17.
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 2 nov 2026]. Disponível em: recomendações.
Imagem: Soggybread / Wikimedia Commons — CC0 1.0.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.