Zumbido, ansiedade e sono: quando a TCC pode ajudar?
Postado em: 30/10/2026
Se o problema é um som que a pessoa ouve, por que indicar terapia? Porque a terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode reduzir o sofrimento e a interferência desse som na vida, mesmo quando ele continua sendo percebido. A indicação de psicoterapia não significa que o zumbido seja imaginário.1
Zumbido é a percepção de um som sem uma fonte sonora externa correspondente. Pode ser um apito, chiado ou outra sensação auditiva. Sua investigação continua sendo necessária, inclusive para identificar problemas de audição ou causas que tenham tratamento próprio.1
Há situações que não devem esperar: zumbido com fraqueza súbita no rosto ou outros sinais neurológicos importantes exige atendimento imediato; perda de audição súbita recente exige avaliação no mesmo dia. Zumbido persistente em apenas um ouvido ou que pulsa merece investigação específica, mesmo sem esses sinais de urgência.2
Ouvir o som e sofrer com ele são medidas diferentes
A presença do zumbido, o incômodo que ele provoca e as atividades que ficam prejudicadas se relacionam, mas não são equivalentes. É possível, por exemplo, continuar percebendo o som e conseguir ler com menos interrupções. Isso seria uma mudança relevante na vida, embora não significasse que o zumbido desapareceu.
Essa distinção ajuda a entender os estudos. Em um ensaio com 492 adultos, um programa que combinava TCC com componentes de reabilitação auditiva foi comparado ao atendimento habitual. Ao longo de 12 meses, o programa apresentou resultados melhores em qualidade de vida e nos questionários de gravidade e impacto do zumbido.3
No questionário de impacto chamado THI, cuja pontuação vai de 0 a 100 e aumenta conforme o prejuízo, a diferença média entre os grupos foi de aproximadamente 7,5 pontos a favor do programa. Esse número mede uma diferença no impacto do zumbido; não representa uma porcentagem de pessoas curadas nem uma redução do volume sonoro. Como o tratamento era combinado, o efeito não pode ser atribuído integralmente à TCC isolada.3,4
O que acontece na TCC direcionada ao zumbido?
O trabalho pode abordar interpretações que tornam o som ameaçador, respostas de ansiedade e comportamentos que restringem a rotina.1,4
Considere uma situação ilustrativa: uma pessoa tenta ler, mas interrompe a leitura repetidamente para verificar se o zumbido aumentou. Ela teme que continuar a atividade signifique ignorar uma piora e acaba desistindo do livro. Na terapia, pode-se explorar essa previsão, a informação clínica disponível e formas viáveis de retomar a leitura.
A terapia não se resume a uma recomendação para “pensar positivo” ou a uma cobrança para deixar de ouvir o som. Tampouco substitui a proteção auditiva necessária ou orientações sobre exposição a ruído.2,4
Uma revisão Cochrane de 28 estudos encontrou evidência de certeza baixa a moderada de que a TCC pode reduzir o impacto negativo do zumbido na qualidade de vida ao final do tratamento. A dimensão do benefício variou conforme a comparação: esperar sem intervenção, receber acompanhamento audiológico ou participar de outro tratamento são situações diferentes. Por isso, não existe uma única porcentagem de sucesso que resuma essas pesquisas.4
Quando a dificuldade principal é dormir
Quando o zumbido vem acompanhado de dificuldade para adormecer ou manter o sono, a insônia também precisa ser avaliada. A TCC direcionada ao impacto do zumbido e a TCC para insônia, ou TCC-I, têm alvos relacionados, mas não são a mesma intervenção.2,5
Um ensaio com 102 pessoas com zumbido e insônia comparou TCC-I, acompanhamento audiológico e um grupo de apoio ao sono. A TCC-I foi superior ao acompanhamento audiológico na redução da insônia e na melhora da eficiência do sono — a proporção do tempo na cama efetivamente passada dormindo — tanto após a intervenção quanto no acompanhamento de seis meses.5
Entre os participantes avaliados aos seis meses, 82% no grupo de TCC-I atingiram o critério de melhora da insônia, contra 47% no acompanhamento audiológico e 20% no grupo de apoio. O critério foi uma redução superior a seis pontos no Índice de Gravidade da Insônia (ISI), um questionário sobre a intensidade e o impacto da dificuldade de dormir. Essas porcentagens descrevem melhora segundo esse critério, não remissão da insônia ou desaparecimento do zumbido.5
A dificuldade de dormir pode ser tratada sem esperar que o zumbido desapareça. A avaliação do sono e das demais condições de saúde orienta esse plano. O artigo sobre quando a insônia merece avaliação aprofunda essa questão.
Ansiedade e depressão coexistentes também podem precisar de tratamento. O uso de um antidepressivo para uma dessas condições tem uma finalidade diferente de tentar eliminar o som do zumbido.1
Para perceber progresso, além de relatar o incômodo, é possível observar se ficou mais fácil permanecer em uma leitura, acompanhar uma conversa ou descansar. Essas mudanças podem ser discutidas com o terapeuta e acompanhadas por instrumentos clínicos. Perguntar apenas se o som ainda está presente pode deixar de mostrar uma parte importante do resultado.2
Referências
- National Institute on Deafness and Other Communication Disorders. Tinnitus [Internet]. Bethesda: NIDCD; 2023 maio 1 [citado 30 out 2026]. Disponível em: nidcd.nih.gov.
- National Institute for Health and Care Excellence. Tinnitus: assessment and management. NG155 [Internet]. London: NICE; 2020 mar 11 [citado 30 out 2026]. Disponível em: nice.org.uk.
- Cima RFF, Maes IH, Joore MA, Scheyen DJWM, El Refaie A, Baguley DM, et al. Specialised treatment based on cognitive behaviour therapy versus usual care for tinnitus: a randomised controlled trial. Lancet. 2012;379(9830):1951–1959. doi: 10.1016/S0140-6736(12)60469-3.
- Fuller T, Cima R, Langguth B, Mazurek B, Vlaeyen JWS, Hoare DJ. Cognitive behavioural therapy for tinnitus. Cochrane Database Syst Rev. 2020;1:CD012614. doi: 10.1002/14651858.CD012614.pub2.
- Marks E, Hallsworth C, Vogt F, Klein H, McKenna L. Cognitive behavioural therapy for insomnia (CBTi) as a treatment for tinnitus-related insomnia: a randomised controlled trial. Cogn Behav Ther. 2023;52(2):91–109. doi: 10.1080/16506073.2022.2084155.
Imagem: adaptação de fotografia de Katerina Filipko / Pexels.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.