Transtorno de sintomas somáticos: o que significa esse diagnóstico?

Postado em: 30/10/2026

Mulher sentada na cama mantém as mãos sobre o abdômen.

Receber o diagnóstico de transtorno de sintomas somáticos não significa que os sintomas físicos tenham sido inventados. Ele descreve sintomas que causam sofrimento ou limitações, acompanhados de preocupações, ansiedade ou comportamentos excessivos relacionados a eles.1

O que precisa ser avaliado para chegar ao diagnóstico

A avaliação procura identificar um conjunto: um ou mais sintomas físicos angustiantes ou que atrapalham a vida; pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos ligados a esses sintomas; e persistência desse quadro, mesmo que as manifestações físicas mudem ao longo do tempo.1

“Excessivo” pode se referir a pensamentos persistentes desproporcionais à gravidade do problema, ansiedade elevada ou dedicação de tempo e energia que passa a dominar a rotina. Esse julgamento depende do contexto clínico. Sentir medo diante de um sintoma novo ou de uma doença grave, por si só, não define o transtorno.1

Exames normais não bastam para estabelecer o diagnóstico. Uma doença física pode coexistir com ele. O nome também não determina uma causa emocional única para cada sensação nem indica simulação.1

Há uma diferença em relação à ansiedade de doença: nessa outra condição, o medo de ter ou desenvolver uma doença predomina, geralmente sem sintomas físicos expressivos. No transtorno de sintomas somáticos, os sintomas presentes e a maneira como repercutem na vida ocupam o centro da avaliação.2

O que acompanhar ao longo do tratamento

Ter um profissional ou equipe de referência permite comparar o que está acontecendo agora com a história anterior. Nos retornos, é possível rever explicações, resposta ao tratamento e mudanças que justifiquem investigação. O diagnóstico prévio não autoriza descartar um sintoma novo ou uma piora relevante.2

Em um estudo com 354 adultos com múltiplos sintomas físicos persistentes, consultas médicas estruturadas foram acrescentadas ao acompanhamento habitual. Elas incluíam reconstruir a história, oferecer explicações sobre os sintomas e discutir formas de manejá-los. Após 52 semanas, a diferença média ajustada foi de 1,8 ponto a favor desse grupo, em comparação com o acompanhamento habitual sozinho, no questionário PHQ-15.3 Esse questionário vai de 0 a 30 pontos; valores maiores indicam maior incômodo com os sintomas físicos.4 A seleção não exigia o diagnóstico atual de transtorno de sintomas somáticos.3

Se houver depressão, ansiedade ou uma condição dolorosa com indicação específica de medicamento, esses problemas podem receber tratamento próprio. É importante identificar qual sintoma o remédio pretende melhorar e acompanhar o resultado, em vez de esperar que uma única prescrição resolva todo o quadro.2

O que a psicoterapia trabalha na prática

Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), paciente e terapeuta podem examinar o que a pessoa pensa e sente diante dos sintomas e o receio de realizar certas atividades.5

Considere uma situação ilustrativa: após avaliação médica, uma pessoa tem condições de participar de uma refeição familiar, mas evita qualquer convite por antecipar que não suportará o desconforto. Na terapia, pode-se esclarecer o que ela teme que aconteça, quais informações sustentam essa previsão e quais ajustes tornariam a participação possível. O plano respeita a condição clínica e é revisto conforme a experiência.

Nesse exemplo, um resultado útil poderia ser conseguir permanecer à mesa e participar do encontro, além de observar como os sintomas evoluíram. A pessoa não deve ser pressionada a suportar dor nem a ultrapassar os limites físicos definidos na avaliação.

Os estudos ajudam a dimensionar possibilidades, mas avaliaram grupos diferentes. Em um ensaio com 84 participantes, dez sessões de TCC foram acrescentadas ao acompanhamento médico com uma intervenção de consulta psiquiátrica. Aos 15 meses, 40% no grupo da TCC foram considerados muito ou muitíssimo melhores, contra 5% no grupo de comparação. A pesquisa usou o diagnóstico antigo de transtorno de somatização, que não equivale diretamente ao diagnóstico atual. O resultado não é uma taxa de cura aplicável a todas as pessoas com sintomas somáticos.6

Já um ensaio com 324 adultos com sintomas físicos persistentes comparou oito sessões de TCC mais acompanhamento habitual com o acompanhamento habitual sozinho. Após 52 semanas, não houve diferença significativa no resultado principal, que media dificuldades no trabalho e na vida social. Algumas medidas secundárias, como a intensidade dos sintomas físicos, favoreceram a TCC. Esse estudo também não exigia o diagnóstico de transtorno de sintomas somáticos.5

O diagnóstico orienta o tratamento de sintomas reais e das dificuldades associadas. Ele não encerra a avaliação médica: sintomas novos ou uma piora relevante precisam ser reavaliados.2

Referências

  1. American Psychiatric Association. What is somatic symptom disorder? [Internet]. Washington (DC): APA; 2024 jul [citado 30 out 2026]. Disponível em: psychiatry.org.
  2. Muskin PR. Expert Q&A: somatic symptom disorder [Internet]. Washington (DC): American Psychiatric Association; [data desconhecida] [citado 30 out 2026]. Disponível em: psychiatry.org.
  3. Burton C, Mooney C, Sutton L, White D, Dawson J, Neilson AR, et al. Effectiveness of a symptom-clinic intervention delivered by general practitioners with an extended role for people with multiple and persistent physical symptoms in England: the Multiple Symptoms Study 3 pragmatic, multicentre, parallel-group, individually randomised controlled trial. Lancet. 2024;403(10444):2619–2629. doi: 10.1016/S0140-6736(24)00700-1.
  4. Mooney C, White DA, Dawson J, Deary V, Fryer K, Greco M, et al. Study protocol for the Multiple Symptoms Study 3: a pragmatic, randomised controlled trial of a clinic for patients with persistent (medically unexplained) physical symptoms. BMJ Open. 2022;12(11):e066511. doi: 10.1136/bmjopen-2022-066511.
  5. Chalder T, Patel M, Hotopf M, Moss-Morris R, Ashworth M, Watts K, et al. Efficacy of therapist-delivered transdiagnostic CBT for patients with persistent physical symptoms in secondary care: a randomised controlled trial. Psychol Med. 2023;53(2):486–496. doi: 10.1017/S0033291721001793.
  6. Allen LA, Woolfolk RL, Escobar JI, Gara MA, Hamer RM. Cognitive-behavioral therapy for somatization disorder: a randomized controlled trial. Arch Intern Med. 2006;166(14):1512–1518. doi: 10.1001/archinte.166.14.1512.

Imagem: cottonbro studio / Pexels.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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