Tenho TDAH e quero engravidar: como planejar o tratamento?

Postado em: 30/10/2026

Mulher segura um calendário com uma data circulada e um teste de gravidez.

Planejar uma gravidez não significa que seja necessário suspender automaticamente o tratamento do TDAH. Para algumas mulheres, é possível seguir sem medicação; para outras, ela continua sendo importante para manter atividades do dia a dia. Essa decisão deve ser tomada antes da concepção, quando possível, com quem prescreve o tratamento e com o obstetra.1

Se a gravidez já começou, procure esses profissionais para revisar o plano. Ter usado um medicamento antes de descobrir a gestação não significa, por si só, que o bebê tenha sido prejudicado. Não interrompa, reduza ou substitua a medicação por conta própria.1

O que o tratamento está ajudando a manter?

A decisão considera as dificuldades causadas pelo TDAH e a resposta aos tratamentos anteriores. Uma revisão de especialistas recomenda considerar medicação especialmente quando o TDAH compromete de forma moderada ou grave a vida diária, junto de psicoeducação, estratégias de organização e psicoterapia.2

Na prática, “funcionar melhor” pode significar conseguir acompanhar compromissos de saúde, terminar tarefas essenciais ou organizar horários sem perder etapas importantes. Esses exemplos ajudam a explicar o benefício do tratamento com mais precisão do que dizer apenas que a concentração melhorou.

Também interessa saber o que aconteceu em mudanças anteriores: houve retorno de dificuldades importantes? Os apoios disponíveis foram suficientes? Essas informações entram na avaliação; não é necessário interromper o remédio para produzir uma comparação.1,2 O panorama das opções está no artigo sobre tratamento medicamentoso do TDAH em adultos. Na gravidez, essa escolha também depende das evidências disponíveis para cada medicamento.

“É seguro na gravidez?” reúne perguntas diferentes

Um estudo pode investigar a formação dos órgãos do bebê; outro, complicações da gestação; outro, o desenvolvimento da criança anos depois. Um resultado tranquilizador em uma dessas áreas não responde automaticamente às demais.

Formação dos órgãos

Um grande estudo com registros dos Estados Unidos e de países nórdicos encontrou uma pequena associação entre metilfenidato no primeiro trimestre e malformações cardíacas. Para dimensioná-la, os autores partiram de cerca de 10 casos por 1.000 nascimentos e estimaram aproximadamente 3 casos adicionais por 1.000 exposições. Não foi identificado aumento das malformações consideradas em conjunto.3

Essa é uma estimativa populacional de um estudo observacional: ela não prevê o resultado de uma gestação individual nem comprova que o medicamento tenha causado a diferença. O achado precisa ser ponderado junto da necessidade do tratamento, sem ser transformado em proibição automática.2,3

Desenvolvimento infantil

Os resultados mais recentes são tranquilizadores para os desfechos examinados. Um estudo americano de 2024 analisou registros de prescrição de metilfenidato ou anfetamina/dextroanfetamina, com foco na segunda metade da gestação. Consideradas em conjunto, suas análises não sugeriram aumento relevante dos transtornos do neurodesenvolvimento avaliados. Uma associação inicial entre metilfenidato e TDAH na criança deixou de aparecer nas análises que controlaram de maneira mais rigorosa o TDAH materno.4

Em 2025, uma pesquisa sueca comparou crianças expostas a medicamentos para TDAH durante a gestação com filhos de mulheres que os haviam interrompido antes da concepção. Não encontrou aumento de TDAH, autismo ou do conjunto de transtornos do neurodesenvolvimento estudados; o acompanhamento médio desse último desfecho foi de cerca de sete anos. A maior parte das exposições era a metilfenidato, e a precisão foi menor para medicamentos menos utilizados.5

Evolução da gestação

Complicações maternas, da placenta, do crescimento fetal e do parto precisam de avaliação própria. Um estudo de 2026 analisou registros de mais de 32 mil mulheres que haviam recebido estimulantes antes da gravidez. Na comparação com mulheres sem prescrições de estimulantes ou atomoxetina durante a gestação, o uso de estimulantes esteve associado a maior chance de hipertensão gestacional e parto prematuro. Outros resultados variaram conforme o medicamento e o problema analisado. As diferenças entre as mulheres e as limitações dos registros impedem concluir que o remédio, isoladamente, explique esses resultados.6

Por isso, trocar para um medicamento “não estimulante” não garante maior segurança. A escolha depende da evidência disponível para aquela substância, da resposta anterior e das condições da gestação.2,6

Apoios que tenham uma função definida

Organização da rotina e psicoterapia podem integrar o planejamento, com ou sem medicação.2 Por exemplo, se o problema é perder compromissos anotados em lugares diferentes, concentrá-los em uma única agenda pode fazer parte de uma estratégia combinada. Se uma tarefa importante costuma ficar incompleta, pode-se definir quem ajudará a conferir sua conclusão, com a concordância da mulher.

Mesmo com esses apoios, a medicação pode continuar necessária. Precisar de tratamento não significa falta de esforço.

Ao longo da gestação, psiquiatra e obstetra acompanham os sintomas, a resposta ao tratamento e as condições clínicas. Se houver necessidade de ajustar o plano, a decisão também considera as preferências da mulher; não há uma troca automática de medicamento a cada trimestre.1,2

Referências

  1. UK Teratology Information Service. Methylphenidate [Internet]. Best Use of Medicines in Pregnancy; 2023 jan. Versão 4 [citado 30 out 2026]. Disponível em: medicinesinpregnancy.org.
  2. Scoten O, Tabi K, Paquette V, Carrion P, Ryan D, Radonjic NV, et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder in pregnancy and the postpartum period. Am J Obstet Gynecol. 2024;231(1):19–35. doi: 10.1016/j.ajog.2024.02.297.
  3. Huybrechts KF, Bröms G, Christensen LB, Einarsdóttir K, Engeland A, Furu K, et al. Association between methylphenidate and amphetamine use in pregnancy and risk of congenital malformations: a cohort study from the International Pregnancy Safety Study Consortium. JAMA Psychiatry. 2018;75(2):167–175. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2017.3644.
  4. Suarez EA, Bateman BT, Hernandez-Diaz S, Straub L, McDougle CJ, Wisner KL, et al. Prescription stimulant use during pregnancy and risk of neurodevelopmental disorders in children. JAMA Psychiatry. 2024;81(5):477–488. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2023.5073.
  5. Bang Madsen K, Larsson H, Skoglund C, Liu X, Munk-Olsen T, Bergink V, et al. In utero exposure to methylphenidate, amphetamines and atomoxetine and offspring neurodevelopmental disorders – a population-based cohort study and meta-analysis. Mol Psychiatry. 2025;30(9):3885–3894. doi: 10.1038/s41380-025-02968-4.
  6. Tuan WJ, Sarkar N, Griffin P, Babinski DE. Comparative risks of pregnancy complications in women prescribed psychostimulants or atomoxetine during pregnancy following pre-pregnancy stimulant use. Psychiatr Res Clin Pract. 2026;8(3):103–111. doi: 10.1176/appi.prcp.20250149.

Imagem: adaptação de fotografia de Nataliya Vaitkevich / Pexels.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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