Quando considerar a cetamina no tratamento psiquiátrico?
Postado em: 13/02/2026

A cetamina costuma ser considerada quando um episódio depressivo continua causando sofrimento e prejuízo importante apesar de tratamentos anteriores bem conduzidos. Ela não é uma escolha automática nem precisa ser reservada para um “último recurso”: a decisão depende do diagnóstico, da gravidade, do histórico terapêutico e dos riscos de cada pessoa.
Em termos práticos, a conversa ganha relevância principalmente na depressão resistente ao tratamento e em alguns episódios depressivos do transtorno bipolar. A indicação deve resultar de avaliação psiquiátrica individualizada e de comparação com as demais opções disponíveis.[1][2]
Em resumo:
- não costuma ser tratamento de primeira linha;
- pode entrar no plano após tentativas adequadas sem resposta suficiente;
- diagnóstico e tratamentos anteriores precisam ser revistos antes da indicação;
- rapidez de ação possível não significa resposta garantida nem substitui um plano de continuidade.
O que significa depressão resistente?
Um critério frequentemente utilizado é a ausência de resposta satisfatória após pelo menos duas tentativas adequadas de antidepressivos. “Adequada” significa que o medicamento foi usado na dose, pelo tempo e com a regularidade esperados. Essa definição orienta a avaliação, mas não substitui o julgamento clínico.[2]
Antes de concluir que há resistência, é preciso revisar o diagnóstico e procurar causas de uma aparente falta de resposta. Entre elas estão adesão irregular, duração insuficiente do tratamento, uso de substâncias, condições clínicas associadas e um transtorno bipolar ainda não reconhecido.
Em quais situações a cetamina pode entrar na conversa?
Sintomas persistentes após tratamentos adequados
Esse é o cenário mais bem estudado. A cetamina pode ser discutida quando a depressão permanece moderada ou grave apesar de tentativas terapêuticas consistentes, especialmente quando a doença continua comprometendo trabalho, relações, autocuidado e qualidade de vida.
Episódio depressivo no transtorno bipolar
Em casos selecionados, a cetamina também pode ser considerada na depressão bipolar. Aqui, confirmar o diagnóstico, revisar o estabilizador do humor e acompanhar possíveis mudanças de polaridade são partes essenciais da decisão.[3]
Necessidade de uma resposta clínica mais rápida
Em alguns pacientes, a possibilidade de início de efeito mais rápido pesa na escolha. Isso pode ser relevante diante de sintomas depressivos intensos, inclusive quando há ideação suicida. Ainda assim, a cetamina não substitui avaliação de risco, plano de segurança, acompanhamento próximo ou hospitalização quando indicada.
O número de medicamentos tentados não decide sozinho
Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem chegar a decisões diferentes. Além do histórico de medicamentos, o psiquiatra considera gravidade, duração do episódio, resposta parcial, efeitos adversos anteriores, comorbidades, preferências do paciente e viabilidade de manter o acompanhamento.
| Momento do tratamento | O que costuma ser avaliado |
|---|---|
| Primeiro episódio ou poucas tentativas | Diagnóstico, psicoterapia e tratamentos de primeira linha |
| Resposta parcial | Adesão, dose, duração, combinação ou troca de estratégia |
| Duas ou mais tentativas adequadas sem resposta suficiente | Confirmação de resistência e discussão de opções como a cetamina |
| Quadro grave ou com risco | Avaliação imediata de segurança e definição do ambiente de cuidado |

O que precisa ser definido antes da primeira infusão?
A avaliação confirma o diagnóstico e o episódio atual, reconstrói os tratamentos anteriores, verifica condições clínicas e medicações em uso e discute benefícios, limites e alternativas. Também devem ficar claros os objetivos que serão acompanhados ao longo do tratamento.
Este artigo trata do momento em que a cetamina pode ser considerada. Para entender o perfil clínico e as situações que exigem cautela, leia quem pode fazer tratamento com cetamina. Para conhecer a organização do cuidado na Genuine, veja como funcionam a avaliação, as infusões e o acompanhamento.
A decisão é individual
A cetamina faz mais sentido quando existe uma pergunta clínica clara: quais sintomas se pretende tratar, por que as estratégias anteriores foram insuficientes e como a resposta será medida. Uma boa indicação nasce dessa análise, e não apenas do interesse pelo tratamento.
Se quiser discutir se essa opção se encaixa no seu momento de tratamento, é possível agendar uma avaliação na Genuine.
Atualizado em 1º de setembro de 2026.
Referências
- Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 20/2024.
- CANMAT Task Force Recommendations for the Use of Racemic Ketamine in Adults with Major Depressive Disorder. Canadian Journal of Psychiatry, 2021.
- Synthesizing the Evidence for Ketamine and Esketamine in Treatment-Resistant Depression. American Journal of Psychiatry, 2021.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.