Cetamina para depressão: resultados clínicos e o que esperar do tratamento
Postado em: 12/06/2026
A cetamina pode reduzir sintomas depressivos com rapidez em parte dos pacientes com depressão resistente, mas não funciona para todas as pessoas e não substitui uma avaliação psiquiátrica completa. A indicação depende do diagnóstico, dos tratamentos já realizados, das condições clínicas e dos riscos individuais.
Os estudos mostram benefício principalmente no transtorno depressivo maior resistente ao tratamento. A resposta pode aparecer nas primeiras aplicações, porém sua intensidade e duração variam. Por isso, o resultado deve ser acompanhado com critérios clínicos, escalas de sintomas e um plano para as etapas seguintes.
Resumo: o que é importante saber
- A evidência mais consistente é para depressão resistente ao tratamento.
- Algumas pessoas apresentam melhora rápida, mas resposta e remissão não são garantidas.
- Existem diferentes vias de administração, com evidências, regras e protocolos próprios.
- Pressão arterial, estado clínico e possíveis efeitos dissociativos precisam ser monitorados.
- A cetamina deve fazer parte de um plano terapêutico mais amplo, e não de uma intervenção isolada.
O que é depressão resistente ao tratamento?
Em muitos estudos e diretrizes, a depressão é considerada resistente quando não houve resposta satisfatória após pelo menos duas tentativas adequadas de antidepressivos. Essa definição, entretanto, não deve ser aplicada de modo automático: antes de concluir que há resistência, o psiquiatra precisa revisar dose, duração, adesão, efeitos adversos, diagnóstico e condições associadas.
Também é necessário investigar fatores que podem produzir uma aparente resistência, como transtorno bipolar não reconhecido, uso de substâncias, alterações clínicas, sono inadequado e outras condições psiquiátricas. Entenda em mais detalhes como a depressão resistente é identificada.
Quais resultados clínicos podem ocorrer com a cetamina?
Redução rápida dos sintomas
Uma diferença importante em relação aos antidepressivos convencionais é a possibilidade de melhora em horas ou dias, e não apenas após várias semanas. Isso não significa que toda pessoa responderá nem que uma única aplicação produzirá efeito duradouro. A resposta precisa ser medida e reavaliada ao longo do tratamento.
Resposta não é o mesmo que remissão
Resposta costuma indicar uma redução clinicamente relevante dos sintomas. Remissão significa que os sintomas se tornaram mínimos ou ausentes. Um paciente pode melhorar sem atingir remissão completa; por isso, relatos subjetivos devem ser combinados com avaliação funcional e, quando apropriado, escalas padronizadas.
Efeito sobre pensamentos suicidas
Em um ensaio clínico randomizado com adultos que apresentavam transtorno depressivo maior e ideação suicida clinicamente significativa, a cetamina endovenosa produziu maior redução dos pensamentos suicidas após 24 horas do que o midazolam. Esse resultado se refere à redução de sintomas em curto prazo: não demonstra prevenção do suicídio e não substitui atendimento de urgência, avaliação de risco, proteção do paciente e acompanhamento contínuo.[3] Pensamentos de morte, plano suicida ou risco imediato exigem procura por um serviço de emergência; no Brasil, também é possível acionar o SAMU pelo 192 ou o CVV pelo 188.
O que as evidências permitem concluir?
O que mostrou o estudo KADS?
No estudo KADS, participantes com depressão resistente receberam duas aplicações semanais de cetamina racêmica subcutânea ou midazolam durante quatro semanas. Na coorte que recebeu dose fixa de 0,5 mg/kg, não houve diferença significativa nas taxas de remissão. Na coorte com ajuste de dose conforme a resposta, de 0,5 a 0,9 mg/kg, a remissão ocorreu em 19,6% do grupo cetamina e em 2% do grupo midazolam. Portanto, o estudo apoia a eficácia da cetamina subcutânea quando administrada em dose adequada dentro do protocolo pesquisado, mas não a comparou à eletroconvulsoterapia e não estabeleceu um protocolo universal.[2]
O que diz o Parecer CFM nº 20/2024?
O Parecer CFM nº 20/2024 trata especificamente do cloridrato de escetamina em solução injetável. Como essa apresentação é registrada no Brasil para uso anestésico, e não para o tratamento da depressão, sua indicação para transtornos mentais é considerada off-label.
Segundo o parecer, a escetamina injetável pode ser prescrita de forma individualizada, sob responsabilidade do médico, quando os tratamentos estabelecidos falharam ou produziram resposta insuficiente. Os motivos da indicação devem ser registrados no prontuário, e a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido é obrigatória.[1]
Também é necessário separar a indicação da via de administração. A via subcutânea não está prevista na bula da escetamina injetável e é classificada pelo parecer como uso não regulamentado — e não como uso experimental ou off-label em relação à via. Isso não altera o caráter off-label da indicação psiquiátrica. Portanto, indicação, apresentação farmacêutica e via de administração precisam ser consideradas separadamente.[1]
Esses dados não permitem afirmar que exista uma via universalmente melhor ou mais segura para todas as pessoas. A escolha envolve evidência disponível, condição clínica, experiência da equipe, regulamentação e protocolo de segurança. Veja a comparação entre cetamina endovenosa, subcutânea e escetamina intranasal.
Para quem o tratamento pode ser considerado?
A avaliação costuma fazer mais sentido quando há diagnóstico confirmado de depressão, sofrimento ou prejuízo funcional relevante e resposta insuficiente a tratamentos adequados. O histórico completo ajuda a estimar benefício, riscos e alternativas.
Antes de indicar a cetamina, o psiquiatra pode revisar:
- diagnóstico atual e possibilidade de transtorno bipolar ou sintomas psicóticos;
- medicamentos, psicoterapias e outras intervenções já realizadas;
- dose, duração, adesão e resposta aos tratamentos anteriores;
- pressão arterial, condições cardiovasculares e outros problemas clínicos;
- uso de álcool, medicamentos sedativos e outras substâncias;
- gestação, amamentação e demais situações que exijam cautela;
- rede de apoio, segurança e possibilidade de acompanhamento após a sessão.
Ter depressão não torna alguém automaticamente candidato ao tratamento. Em quadros leves, no primeiro episódio ou quando tratamentos de primeira linha ainda não foram adequadamente testados, outras abordagens podem ser mais apropriadas.
Como é avaliada a resposta?
O objetivo não é apenas perceber uma mudança no humor no dia da aplicação. Uma avaliação útil observa sintomas, sono, energia, concentração, capacidade de trabalhar, autocuidado, relacionamentos e segurança. Escalas clínicas podem ajudar a comparar o estado antes e depois das sessões.
Se não houver benefício clinicamente relevante após o período definido pela equipe, o plano deve ser revisto. Se houver resposta, é necessário discutir como mantê-la. Não existe um número fixo de sessões que sirva para todas as pessoas, e estratégias de manutenção ainda variam conforme o caso e a via utilizada.
O que acontece durante uma sessão?
O preparo, o tempo de administração e o período de observação variam conforme a via e o protocolo. Em geral, a equipe confirma as condições clínicas, monitora sinais vitais e acompanha possíveis alterações perceptivas, tontura, náusea, sonolência ou elevação transitória da pressão arterial.
Ao final, o paciente só deve deixar o serviço após avaliação da equipe e precisa seguir as orientações sobre acompanhante, direção de veículos e atividades no restante do dia. Saiba como funciona uma sessão com cetamina e conheça as etapas de avaliação e acompanhamento clínico.
Riscos, efeitos adversos e limitações
Os efeitos mais relatados durante ou logo após a administração incluem dissociação, alterações perceptivas, tontura, náusea, sonolência e aumento transitório da pressão arterial. Em geral, são monitorados até a recuperação clínica, mas a ocorrência e a intensidade variam.
O uso repetido também exige atenção a possíveis problemas urinários, cognitivos, hepáticos e ao risco de uso inadequado ou dependência. A segurança depende de seleção clínica, dose, frequência, supervisão e acompanhamento. Automedicação ou uso fora de ambiente assistencial não equivale ao tratamento médico estudado.
Outra limitação é a duração do efeito. Algumas pessoas apresentam benefício por tempo limitado e podem necessitar de outras intervenções para consolidar a melhora. Psicoterapia, medicamentos, sono, rotina e suporte social continuam relevantes conforme o plano individual.
Perguntas frequentes
A cetamina cura a depressão?
Não é adequado falar em cura garantida. A cetamina pode reduzir sintomas e favorecer recuperação funcional em pacientes selecionados, mas a depressão pode exigir cuidado contínuo e combinação de estratégias.
Em quanto tempo é possível perceber melhora?
Algumas pessoas percebem mudanças nas primeiras horas ou dias; outras respondem mais tarde ou não respondem. A rapidez não deve ser confundida com duração do efeito.
Quantas sessões são necessárias?
Não há um número universal. O protocolo depende da via, do diagnóstico, da resposta e da tolerabilidade. A continuidade deve ser decidida por avaliações clínicas sucessivas, e não por um pacote fixo.
A cetamina substitui antidepressivos ou psicoterapia?
Em geral, não. Ela costuma integrar um plano terapêutico que pode incluir medicamentos, psicoterapia e intervenções sobre sono, rotina e suporte. Mudanças nos demais tratamentos só devem ser feitas pelo profissional responsável.
Referências
- Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 20/2024: uso da escetamina para o tratamento de transtornos mentais.
- Loo CK et al. Efficacy and safety of a 4-week course of repeated subcutaneous ketamine injections for treatment-resistant depression (KADS study). British Journal of Psychiatry. 2023;223(6):533–541.
- Grunebaum MF et al. Ketamine for rapid reduction of suicidal thoughts in major depression: a midazolam-controlled randomized clinical trial. American Journal of Psychiatry. 2018;175(4):327–335.
Conteúdo atualizado em agosto de 2026. Este artigo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica individual.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.