Fibromialgia, depressão e cetamina: o que a ciência mostra até agora
Postado em: 17/08/2026

Entenda por que a cetamina passou a ser estudada na fibromialgia, em quais situações a evidência é mais consistente e quais perguntas ainda permanecem sem resposta.
Por Dr. Rogério Onofre, Médico psiquiatra em São Paulo
CRM-SP 192.427 | Psiquiatria – RQE 109.401
Uma revisão sistemática publicada em 2024, baseada em estudos localizados no PubMed até 2021, encontrou apenas seis trabalhos sobre cetamina em pessoas com fibromialgia, reunindo 115 participantes. Embora parte deles tenha identificado redução da dor logo após a administração, as pesquisas eram pequenas, utilizavam protocolos diferentes e não demonstraram de forma consistente que o benefício se mantivesse.
O cenário atual pode ser resumido assim: há um sinal científico que merece investigação, mas ainda não existe evidência suficiente para considerar a cetamina um tratamento estabelecido para fibromialgia.
A situação é diferente quando existe depressão resistente associada. Nesse contexto, a cetamina e a escetamina possuem evidências mais consistentes para reduzir sintomas depressivos. Ainda assim, não se pode presumir que o mesmo tratamento também melhorará a dor, a fadiga, o sono e a funcionalidade.
Prefere assistir? No vídeo abaixo, explico por que as evidências da cetamina são diferentes para depressão resistente e fibromialgia — e o que ainda não sabemos sobre seu possível efeito na dor.
Fibromialgia não é dor imaginária
A fibromialgia é uma condição caracterizada por dor disseminada e persistente, frequentemente acompanhada de:
- fadiga;
- sono não reparador;
- dificuldades de concentração e memória;
- maior sensibilidade a estímulos;
- redução da capacidade funcional.
O fato de exames laboratoriais ou de imagem não identificarem uma lesão específica não torna a dor menos real.
Em muitos pacientes, existem alterações na maneira como o sistema nervoso recebe, amplifica e modula os sinais dolorosos. A fibromialgia é frequentemente compreendida dentro do conceito de dor nociplástica: uma dor relacionada a alterações no processamento da dor, mesmo quando não existe uma lesão tecidual ou neurológica capaz de explicar toda a intensidade dos sintomas.
A sensibilização central pode participar desse processo, mas não explica sozinha todos os casos. A fibromialgia é uma condição heterogênea. Também pode envolver alterações no sono, no funcionamento do sistema autonômico, na regulação emocional e em mecanismos periféricos.
Qual é a relação entre fibromialgia e depressão?
Fibromialgia e depressão aparecem juntas com frequência, mas são condições diferentes.
Uma metanálise estimou que aproximadamente 25% das pessoas com fibromialgia apresentavam depressão maior no momento da avaliação. Ao longo da vida, a estimativa chegou a 65%, embora os números variem de acordo com a população estudada e o método utilizado para o diagnóstico.
Isso não significa que a fibromialgia seja uma forma de depressão. A dor persistente pode prejudicar o sono, limitar atividades, reduzir a vida social e aumentar a vulnerabilidade a sintomas depressivos. Em sentido inverso, a depressão pode agravar fadiga, isolamento, desesperança e incapacidade funcional.
Em alguns pacientes, forma-se um ciclo: dor, sono ruim, exaustão, menor nível de atividade, piora do humor e maior limitação.
Tratar a depressão pode reduzir parte desse sofrimento e favorecer a retomada de atividades. Entretanto, melhora do humor e redução da dor são resultados diferentes e precisam ser avaliados separadamente.
Como a fibromialgia costuma ser tratada?
O tratamento geralmente combina diferentes estratégias, escolhidas de acordo com os sintomas predominantes e as limitações de cada pessoa:
- educação sobre a condição;
- exercício físico progressivo e individualizado;
- intervenções direcionadas ao sono;
- psicoterapia;
- tratamento de depressão e ansiedade associadas;
- medicamentos direcionados à dor ou a outros sintomas;
- reabilitação funcional.
Nas recomendações da European Alliance of Associations for Rheumatology — EULAR, o exercício foi a única intervenção que recebeu uma recomendação forte a favor. As demais estratégias devem ser individualizadas conforme dor, sono, humor e grau de incapacidade.
Isso não significa simplesmente orientar o paciente a se exercitar. Para alguém com dor e fadiga intensas, a atividade precisa começar de forma compatível com suas limitações, ser ajustada ao longo do tempo e progredir gradualmente.
O tratamento também não deve ser reduzido à escolha de um único medicamento. A fibromialgia costuma exigir uma abordagem multimodal e acompanhamento ao longo do tempo.
Por que a cetamina passou a ser estudada?
A cetamina é utilizada há décadas como anestésico. Em doses subanestésicas, passou a ser estudada por seus possíveis efeitos antidepressivos e analgésicos. Sua ação envolve o sistema glutamatérgico, especialmente os receptores NMDA.
Como o glutamato participa tanto de circuitos relacionados ao humor quanto de mecanismos envolvidos na amplificação da dor, surgiu a hipótese de que a cetamina pudesse ser útil em pessoas com depressão resistente e fibromialgia. Essa hipótese é biologicamente plausível. Mas plausibilidade não equivale a eficácia clínica comprovada.
Para avaliar um possível benefício, é necessário acompanhar separadamente:
- sintomas depressivos;
- intensidade da dor;
- fadiga;
- sono;
- funcionalidade;
- duração da resposta;
- efeitos adversos.
Até o momento, não existem estudos robustos demonstrando melhora simultânea e duradoura desses diferentes aspectos em pacientes com fibromialgia e depressão resistente.
O que se sabe sobre cetamina na depressão resistente?
Na depressão resistente, a base científica é mais desenvolvida.
Estudos e metanálises mostram que a cetamina racêmica, especialmente por via intravenosa, e a escetamina intranasal podem reduzir sintomas depressivos rapidamente em parte dos pacientes, às vezes em horas ou poucos dias. Nem todos respondem, e a manutenção do benefício costuma exigir um planejamento longitudinal.
A diretriz CANMAT inclui a cetamina intravenosa e a escetamina intranasal entre as estratégias adjuvantes de segunda linha para depressão de difícil tratamento. Durante o tratamento, precisam ser monitorados fatores como:
- pressão arterial;
- frequência cardíaca;
- sintomas dissociativos;
- sedação;
- náusea;
- alterações perceptivas;
- risco de uso inadequado.
No Brasil, a escetamina intranasal possui indicação registrada para depressão resistente em adultos que não responderam adequadamente a pelo menos dois antidepressivos, sendo utilizada em associação com um antidepressivo oral.
Já as apresentações injetáveis de cetamina ou escetamina não possuem indicação registrada para tratamento da depressão. Quando utilizadas com essa finalidade, o uso é considerado off-label.
A evidência também é específica para determinadas formulações, vias e protocolos. Resultados obtidos com cetamina intravenosa ou escetamina intranasal não devem ser automaticamente extrapolados para outras formas de administração.
Assim, quando uma pessoa com fibromialgia e depressão resistente recebe cetamina ou escetamina, a indicação mais bem sustentada pode ser o tratamento da depressão — e não necessariamente da dor relacionada à fibromialgia.
O que os estudos mostram na fibromialgia?
A evidência específica para fibromialgia é muito menor.
A revisão publicada em 2024 encontrou seis estudos prospectivos, com apenas 115 participantes. Os protocolos variavam bastante e avaliaram principalmente cetamina intravenosa, muitas vezes em uma única administração. Alguns trabalhos mostraram redução da dor durante ou logo após a aplicação.
Três limitações merecem atenção.
Benefício predominantemente imediato
Os resultados mais positivos foram observados durante a administração ou nas horas seguintes. Isso não demonstra que exista melhora clinicamente relevante durante semanas ou meses.
Amostras pequenas
Com poucos participantes, é difícil distinguir um efeito consistente de variações ocasionais ou de características específicas das pessoas selecionadas para os estudos. Também se torna difícil identificar qual perfil de paciente teria maior probabilidade de responder.
Heterogeneidade e risco de viés
Os estudos utilizaram doses, tempos de infusão, comparadores e formas de avaliação diferentes. Parte deles apresentava risco elevado de viés, e efeitos adversos transitórios foram frequentes.
Em um ensaio randomizado com 24 participantes, uma infusão de escetamina reduziu a dor brevemente, mas não demonstrou vantagem sustentada nas horas seguintes nem durante o acompanhamento de oito semanas.
Esses resultados não provam que todo protocolo repetido seja ineficaz. Mostram que ainda não sabemos:
- qual seria a dose mais adequada;
- qual seria a melhor via;
- com que frequência o tratamento deveria ser realizado;
- quanto tempo duraria um eventual benefício;
- qual perfil de paciente teria maior probabilidade de resposta;
- se os possíveis ganhos compensariam os riscos e custos.
E quando o paciente tem fibromialgia e depressão resistente?
Essa é a situação mais relevante para a discussão.
Quando existe depressão resistente, a cetamina ou a escetamina pode ser considerada por sua ação antidepressiva, desde que haja indicação adequada, avaliação de riscos e acompanhamento estruturado. Se os sintomas depressivos melhoram, a pessoa pode recuperar motivação, participar mais ativamente da reabilitação e retomar algumas atividades. Esses ganhos podem contribuir indiretamente para a funcionalidade.
Mas não se deve apresentar como garantida a sequência: melhora do humor, melhora do sono, aumento da atividade e redução da dor. Ela pode ocorrer em alguns casos, mas não foi demonstrada de forma consistente em estudos com pacientes que apresentam simultaneamente fibromialgia e depressão resistente.
O possível efeito sobre a dor deve ser acompanhado separadamente do efeito antidepressivo. Também é importante definir previamente quais resultados serão observados, como:
- intensidade da dor;
- sintomas depressivos;
- qualidade do sono;
- fadiga;
- capacidade funcional;
- participação nas atividades cotidianas.
Isso ajuda a evitar que uma melhora em um domínio seja interpretada automaticamente como melhora global da fibromialgia.
A cetamina é um tratamento para fibromialgia?
Com as evidências atuais, a cetamina não deve ser apresentada como tratamento convencional ou comprovado para fibromialgia.
Em uma pessoa com fibromialgia e depressão resistente, a cetamina ou a escetamina pode ser considerada quando existe uma indicação psiquiátrica própria. Nesse caso, o objetivo principal do tratamento deve ser claramente definido como a redução dos sintomas depressivos.
Um possível efeito adicional sobre a dor pode ser clinicamente relevante, mas permanece incerto e não deve ser apresentado como resultado esperado. O uso especificamente voltado à dor da fibromialgia continua sem evidência suficiente para ser considerado uma intervenção estabelecida.
A cetamina também não substitui:
- exercício progressivo;
- manejo do sono;
- psicoterapia;
- reabilitação;
- tratamento das condições clínicas e psiquiátricas associadas;
- medicamentos com indicação e evidência mais consolidadas para os sintomas apresentados.
Não é adequado prometer melhora global da dor, do sono, da fadiga, da funcionalidade e do humor com uma única intervenção.
O que a ciência permite concluir?
Fibromialgia e depressão são condições diferentes, mas aparecem juntas com frequência e podem aumentar a complexidade do tratamento.
A cetamina e a escetamina possuem evidências mais consistentes para o tratamento da depressão resistente. Na fibromialgia, os estudos identificaram sinais de analgesia predominantemente imediata, mas são pequenos, heterogêneos e não demonstram benefício prolongado de maneira confiável. Para conhecer as etapas clínicas, veja como funciona a infusão de cetamina em casos de fibromialgia.
O que se pode afirmar hoje é que, em pessoas com fibromialgia e depressão resistente, a cetamina ou a escetamina pode ter indicação para tratar a depressão. Um eventual efeito sobre a dor permanece incerto e deve ser avaliado separadamente, sem ser apresentado como benefício esperado do tratamento. Para ampliar a leitura, consulte também quando a cetamina pode ser considerada na dor crônica.
Perguntas frequentes
A cetamina é aprovada para tratar fibromialgia?
Não. A fibromialgia não está entre as indicações registradas para a escetamina intranasal no Brasil. As apresentações injetáveis de cetamina ou escetamina também não possuem indicação aprovada para o tratamento da fibromialgia.
Um eventual uso com objetivo analgésico deve ser apresentado com transparência quanto à limitação das evidências e ao caráter não estabelecido dessa indicação.
A cetamina pode melhorar a dor e a depressão ao mesmo tempo?
É possível que uma pessoa apresente melhora nos dois domínios, mas isso ainda não foi demonstrado de forma consistente por estudos clínicos robustos em pacientes com fibromialgia. A evidência antidepressiva é mais consistente. O benefício analgésico específico para fibromialgia permanece incerto.
Melhorar a depressão reduz a dor automaticamente?
Não. A melhora do humor pode favorecer sono, atividade, participação na reabilitação e funcionamento. Isso pode reduzir parte do sofrimento associado à doença, mas dor e depressão são desfechos diferentes.
A cetamina substitui o tratamento habitual da fibromialgia?
Não. O tratamento da fibromialgia continua sendo multimodal e pode incluir exercício progressivo, manejo do sono, intervenções psicológicas, medicamentos e reabilitação conforme as necessidades de cada pessoa.
A cetamina e a escetamina têm a mesma aprovação para depressão?
Não. No Brasil, a escetamina intranasal possui indicação registrada para depressão resistente em combinação com antidepressivo oral. As apresentações injetáveis de cetamina ou escetamina não possuem indicação registrada para depressão. Quando utilizadas com finalidade antidepressiva, o uso é off-label.
Referências
- Carvalho JF, de Sena EP. Ketamine in fibromyalgia: a systematic review. Advances in Rheumatology. 2024;64:54.
- Sarzi-Puttini P, Giorgi V, Marotto D, Atzeni F. Fibromyalgia: an update on clinical characteristics, aetiopathogenesis and treatment. Nature Reviews Rheumatology. 2020;16(11):645-660.
- Løge-Hagen JS, Sæle A, Juhl C, Bech P, Stenager E, Mellentin AI. Prevalence of depressive disorder among patients with fibromyalgia: systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders. 2019;245:1098-1105.
- Macfarlane GJ, Kronisch C, Dean LE, et al. EULAR revised recommendations for the management of fibromyalgia. Annals of the Rheumatic Diseases. 2017;76(2):318-328.
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments: CANMAT 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. Canadian Journal of Psychiatry. 2024;69(9):641-687.
- Noppers I, Niesters M, Swartjes M, et al. Absence of long-term analgesic effect from a short-term S-ketamine infusion on fibromyalgia pain: a randomized, prospective, double-blind, active placebo-controlled trial. European Journal of Pain. 2011;15(9):942-949.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa. SPRAVATO® — cloridrato de escetamina: novo registro. 2020.
- Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco — Ebserh. Uso off-label de escetamina subcutânea para depressão grave e refratária em adultos: alternativa à eletroconvulsoterapia. Nota Técnica nº 01/2025.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Psiquiatria com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.