Lamotrigina no transtorno bipolar: para que serve e como acompanhar o tratamento
Postado em: 25/09/2026
A lamotrigina é usada no transtorno bipolar principalmente para ajudar a prevenir novos episódios depressivos. Também pode fazer parte do tratamento de uma depressão em curso. Por isso, entender o objetivo da prescrição é o primeiro passo: tratar os sintomas atuais e preservar a estabilidade nos próximos meses são necessidades relacionadas, mas avaliadas de maneiras diferentes.1,2
Quando o psiquiatra fala em manutenção, refere-se ao tratamento que continua depois da melhora para reduzir o risco de novos episódios. Assim, receber lamotrigina quando o humor já está estável pode fazer sentido. O benefício esperado, nesse caso, aparece na continuidade da estabilidade, e não necessariamente como um aumento imediato de energia.1
Em quais fases a lamotrigina pode ajudar?
O papel do medicamento muda conforme a fase do transtorno. O termo “estabilizador do humor” não significa que uma substância trate igualmente depressão, mania e prevenção de recaídas.
| Situação | Papel da lamotrigina | Como interpretar |
|---|---|---|
| Manutenção, após a melhora | Ajuda a prevenir novos episódios, com benefício particularmente relevante para os depressivos. | A avaliação considera a estabilidade ao longo do tempo e a recorrência de episódios.1,2 |
| Episódio depressivo atual | Pode ser uma opção isolada ou associada, conforme o tipo de bipolaridade e o tratamento anterior. | Na diretriz CANMAT/ISBD, está entre as opções de primeira linha para depressão bipolar I e de segunda linha para bipolar II.1 |
| Mania aguda | Não é recomendada para tratar essa fase. | Um episódio de mania exige um plano com tratamento eficaz para essa apresentação.3 |
“Primeira linha” significa estar entre as opções consideradas inicialmente pela diretriz; a escolha para cada pessoa depende da avaliação clínica.
Em um ensaio com pessoas com transtorno bipolar I já estabilizadas, a lamotrigina prolongou o tempo até ser necessário acrescentar tratamento por um episódio depressivo, em comparação com placebo.2
Na depressão atual, os resultados são mais variados. Os ensaios individuais com lamotrigina isolada não foram uniformemente positivos, mas uma análise conjunta encontrou benefício médio modesto. Uma revisão de 2024 também encontrou melhora dos sintomas quando ela foi acrescentada a outro tratamento, em comparação com a adição de placebo.4,5,6
Na bula brasileira consultada de Lamictal em comprimidos dispersíveis, a indicação para bipolaridade é prevenir episódios de humor, principalmente depressivos, em adultos.7 As diretrizes também recomendam a lamotrigina em determinadas situações de depressão atual, uso que não corresponde à indicação preventiva descrita nessa bula.1 O artigo sobre tratamento da depressão bipolar apresenta o contexto mais amplo dessa escolha.
Por que a dose aumenta aos poucos?
A introdução gradual reduz o risco de reações de pele. Começar com uma dose maior ou acelerar os aumentos por conta própria pode elevar esse risco.7 O esquema também leva em conta outros medicamentos, especialmente o valproato.3
Esse período inicial pode gerar a impressão de que “a dose ainda é pequena demais”. Mas o escalonamento — nome dado ao aumento progressivo — faz parte do tratamento. Se os sintomas estiverem difíceis de suportar durante essa etapa, a conversa deve ser sobre o plano completo e o suporte necessário, sem antecipar os aumentos prescritos.
Ficou alguns dias sem tomar lamotrigina? Antes de voltar à dose habitual, converse com o psiquiatra. Após cinco dias consecutivos ou mais sem o medicamento, pode ser necessário recomeçar com uma dose baixa e aumentá-la gradualmente, em vez de retomar diretamente a dose anterior. Esse cuidado reduz o risco de reações de pele na reintrodução.8
Informe quando tomou a última dose e quais outros medicamentos utiliza: essas informações ajudam a definir como retomar o tratamento, inclusive quando a pausa foi menor. Se a interrupção ocorreu por uma reação de pele, não reinicie sem avaliação médica.7
Como perceber se o tratamento está ajudando?
Vale combinar desde o início o que será acompanhado. Se a lamotrigina foi iniciada durante uma depressão, a conversa pode se apoiar em mudanças concretas: a dificuldade para começar o dia diminuiu? Houve retomada de interesse? Trabalhar, estudar ou cuidar da casa ficou menos difícil? Como estão o sono e os efeitos da medicação?
Na manutenção, o acompanhamento considera novos episódios, mudanças do humor e a continuidade das atividades ao longo dos meses.1,2
O tempo para aumentar a dose e o tempo para observar benefício são partes diferentes desse acompanhamento. Não há um prazo único que sirva para toda prescrição. As datas dos ajustes, a regularidade do uso e a evolução dos sintomas ajudam o psiquiatra a interpretar uma resposta ainda insuficiente e decidir o próximo passo.
Anotações breves costumam facilitar o relato: quando uma mudança começou, se persistiu e como afetou a rotina. Não é necessário transformar cada oscilação do dia em um registro. O objetivo é chegar à consulta com exemplos que permitam comparar períodos, e não apenas com a impressão de que “está tudo igual”.
Quais efeitos merecem atenção?
Dor de cabeça, náusea, tontura, sonolência e alterações do sono podem ocorrer. Quando incomodam ou persistem, precisam entrar na avaliação do tratamento. Se houver tontura ou sonolência, evite dirigir até que esses sintomas tenham passado.9
Se aparecer uma erupção nova na pele, procure avaliação médica imediatamente.3 A orientação da bula é interromper a lamotrigina, a menos que o médico determine que a reação não está relacionada ao medicamento.7
Bolhas, descamação ou feridas na boca ou nos olhos, sobretudo com febre, justificam atendimento urgente. Esses sinais podem acompanhar uma reação cutânea grave, embora esse tipo de reação seja raro.10
Exames, interações e mudanças em outros tratamentos
O acompanhamento da lamotrigina não costuma exigir dosagem sanguínea rotineira do medicamento. O NICE reserva essa medida para situações como resposta insuficiente, dúvida sobre a regularidade do uso ou suspeita de toxicidade. Isso é diferente dos exames de avaliação clínica: a diretriz recomenda hemograma, avaliação renal, eletrólitos e função hepática no início, integrados à avaliação médica.3
O valproato pode aumentar a quantidade de lamotrigina no organismo. Alguns anticoncepcionais e tratamentos hormonais que contêm estrogênio podem diminuir sua concentração. Iniciar ou interromper esses tratamentos pode exigir ajustes. Nem todos os anticoncepcionais interagem da mesma forma: informe o nome do produto e eventuais mudanças, inclusive sangramentos fora do habitual.7
Levar a lista atualizada de medicamentos evita que uma mudança feita em outra consulta passe despercebida. Inclua anticoncepcionais e tratamentos hormonais, mesmo que não sejam usados para saúde mental.
Se estiver planejando uma gravidez ou descobrir que está grávida, avise a equipe. A lamotrigina pode ser utilizada na gestação quando indicada, com discussão dos benefícios, riscos e acompanhamento.9 O planejamento está detalhado no artigo sobre transtorno bipolar na gravidez e no pós-parto.
O que levar à próxima consulta
Algumas informações tornam a conversa mais objetiva:
- O que você entendeu sobre o objetivo da lamotrigina no seu tratamento.
- O que melhorou e o que ainda limita o dia a dia.
- Efeitos percebidos e quando começaram.
- Interrupções do uso e mudanças em outros medicamentos ou hormônios.
Essas informações podem orientar a conversa na avaliação psiquiátrica da Genuine Mental Health, tanto para esclarecer a prescrição quanto para rever dificuldades com o tratamento.
Referências
1. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
2. Calabrese JR, Bowden CL, Sachs G, et al. A placebo-controlled 18-month trial of lamotrigine and lithium maintenance treatment in recently depressed patients with bipolar I disorder. J Clin Psychiatry. 2003;64(9):1013–1024. doi:10.4088/jcp.v64n0906.
3. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. Clinical guideline CG185. Recomendações 1.5.12 e 1.10.36–1.10.38. Acesso em 25 set 2026.
4. Calabrese JR, Huffman RF, White RL, et al. Lamotrigine in the acute treatment of bipolar depression: results of five double-blind, placebo-controlled clinical trials. Bipolar Disord. 2008;10(2):323–333. doi:10.1111/j.1399-5618.2007.00500.x.
5. Geddes JR, Calabrese JR, Goodwin GM. Lamotrigine for treatment of bipolar depression: independent meta-analysis and meta-regression of individual patient data from five randomised trials. Br J Psychiatry. 2009;194(1):4–9. doi:10.1192/bjp.bp.107.048504.
6. Haenen N, Kamperman AM, Prodan A, Nolen WA, Boks MP, Wesseloo R. The efficacy of lamotrigine in bipolar disorder: a systematic review and meta-analysis. Bipolar Disord. 2024;26(5):431–441. doi:10.1111/bdi.13452.
7. GlaxoSmithKline Brasil. Lamictal: comprimidos dispersíveis — bula profissional e do paciente. Versão com aprovação pela Anvisa informada em 8 maio 2026. Acesso em 25 set 2026.
8. Stahl SM. Lamotrigine. In: Prescriber’s Guide: Stahl’s Essential Psychopharmacology. 6th ed. Cambridge: Cambridge University Press; 2017. Seção “Dosing tips”. Consulta parcial ao trecho indexado.
9. National Health Service. Lamotrigine. Acesso em 25 set 2026.
10. National Health Service. Stevens-Johnson syndrome. Revisado em 4 mar 2026. Acesso em 25 set 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.