Cetamina na depressão bipolar: quando considerar e o que mostram os estudos?

Postado em: 28/09/2026

Profissional com luvas prepara seringa ao lado de frasco em bandeja clínica.

A cetamina pode entrar na discussão quando um episódio depressivo bipolar persiste apesar de tratamentos adequados. Seu lugar é o de uma opção adicional, escolhida após avaliação especializada e integrada ao cuidado da bipolaridade. A decisão considera o que já foi tentado, os efeitos indesejados e a evolução do humor ao longo do tempo.1

Antes da indicação, entender o percurso

Na consulta, vale distinguir um tratamento que não ajudou de outro que precisou ser interrompido por efeitos adversos. O psiquiatra também revê a intensidade da depressão, as dificuldades do cotidiano e as medicações atuais. Essas informações orientam o próximo passo.1

A síntese de recomendações CANMAT/ISBD de 2023 situa a cetamina intravenosa, acrescentada ao tratamento de base, entre as opções de terceira linha para depressão bipolar. Isso significa uma alternativa posterior às opções mais estabelecidas. Para conhecer o conjunto de possibilidades, o guia de tratamento da depressão bipolar apresenta uma visão mais ampla.1

O que o ensaio de setembro de 2026 acrescentou

Publicado em 2 de setembro de 2026, o Ket-BD sorteou 68 adultos com depressão bipolar I ou II cuja depressão não havia respondido a pelo menos dois tratamentos; 63 entraram na análise de eficácia. O ensaio duplo-cego comparou quatro infusões intravenosas de cetamina com quatro de midazolam, um sedativo usado como controle. O tratamento ocorreu ao longo de duas semanas, sem que participantes e avaliadores soubessem qual medicamento era recebido.2

O tratamento era adjuvante: acrescentado à dose estável de pelo menos um estabilizador do humor ou antipsicótico. No dia 14, o grupo cetamina apresentou, em média, 7,3 pontos a menos na MADRS, escala de gravidade da depressão, em comparação ao midazolam. A diferença foi estatisticamente significativa.2

É evidência favorável para aliviar o episódio depressivo nesse contexto. O resultado de duas semanas não estabelece como manter o benefício por meses.2 A síntese de 2023 antecede esse ensaio; sua publicação não significa que a recomendação formal já tenha sido atualizada.

E quando a proposta é escetamina subcutânea?

Essa é a formulação utilizada pela Genuine Mental Health. A proximidade entre os nomes exige atenção: o Ket-BD estudou cetamina intravenosa. Para avaliar uma proposta subcutânea, é preciso olhar também os estudos dessa molécula e via.

Em 2021, Lucchese e colaboradores publicaram uma análise retrospectiva de 70 pacientes com depressão resistente unipolar ou bipolar, tratados com seis aplicações semanais de escetamina subcutânea como adjuvante. Os resultados sugeriram benefício antidepressivo, mas vieram de uma amostra mista, sem comparação randomizada. Assim, a resposta do conjunto não permite calcular a chance de melhora de uma pessoa com depressão bipolar.3

São evidências que respondem a perguntas diferentes. O ensaio intravenoso testa uma comparação controlada em pacientes bipolares; o estudo subcutâneo descreve resultados em um grupo mais heterogêneo. Nenhum deles demonstra equivalência entre as duas intervenções. O artigo sobre diferenças entre as vias de administração aprofunda essa distinção.

No Brasil, o Parecer CFM nº 20/2024 trata a indicação antidepressiva da escetamina injetável como uso off-label, fora das indicações de bula. Para a via subcutânea, o mesmo parecer utiliza a classificação de uso não regulamentado. A escolha requer justificativa médica, esclarecimento de benefícios e riscos e consentimento informado.4

Acompanhar a melhora e as mudanças do humor

No Ket-BD, não foram observados episódios de mania ou hipomania; houve um caso de características mistas, com sintomas de ativação, em cada grupo. Essa observação favorável, em estudo pequeno e breve, não garante ausência de risco individual.2

Recuperar interesse e disposição é diferente de passar a precisar de muito menos sono, ter pensamentos acelerados ou ficar muito mais ativo que o habitual. Esses sinais, sobretudo em conjunto e como mudança do padrão da pessoa, merecem ser comunicados à equipe. Um dia de irritação, isoladamente, não define hipomania.5

O acompanhamento considera também o que familiares percebem, quando a pessoa concorda com essa participação. Anotar sono, humor e atividades entre as consultas pode ajudar a mostrar mudanças que seriam difíceis de reconstruir de memória. O tratamento continuado da bipolaridade permanece importante mesmo quando a depressão melhora.5

Na avaliação para tratamento com cetamina, vale perguntar: “O que faria desta opção uma boa escolha para mim, e como vamos acompanhar o resultado?”.

Referências

  1. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
  2. Orsini DK, Di Luch S, Tomlinson G, Lovell GFM, Vasudeva S, Rodrigues NB, et al. Serial ketamine infusions for treatment-resistant bipolar depression: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. Publicado online em 2 set. 2026. doi:10.1001/jamapsychiatry.2026.2658.
  3. Lucchese AC, Sarin LM, Magalhães EJM, Del Sant LC, Puertas CB, Tuena MA, et al. Repeated subcutaneous esketamine for treatment-resistant depression: impact of the degree of treatment resistance and anxiety comorbidity. J Psychopharmacol. 2021;35(2):142–149. doi:10.1177/0269881120978398.
  4. Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 20/2024. Brasília: CFM; 2024. Seções III.2, IV e conclusão. Consultado em 26 set. 2026.
  5. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder. Revisado em 2025. Seções sobre sintomas, tratamento e acompanhamento. Consultado em 26 set. 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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