Mirtazapina na depressão: como sono, apetite e tolerabilidade entram na escolha

Postado em: 04/10/2026

Mulher grisalha segura uma colher sobre uma tigela, com uma caneca e uma torrada à mesa.

A mirtazapina é um antidepressivo indicado para episódios de depressão maior em adultos. Seus efeitos sobre o sono e o apetite podem pesar na escolha, mas também trazer dificuldades, como sonolência durante o dia e aumento de peso. A decisão precisa considerar o quadro depressivo e o que a pessoa consegue tolerar no tratamento.1,2

Quando a mirtazapina pode ser considerada?

Na avaliação, o psiquiatra reúne a história da depressão, a resposta a tratamentos anteriores, as preferências do paciente, outras doenças e os medicamentos em uso. Dificuldade para dormir ou perda de apetite podem influenciar essa conversa, mas não formam uma regra que determine qual antidepressivo usar.1,2

Também importa saber o que aconteceu nas tentativas anteriores. Um medicamento pode ter ajudado o humor, mas causado um efeito difícil de suportar; outro pode ter sido bem tolerado sem aliviar o suficiente os sintomas. O objetivo é escolher um tratamento com possibilidade de benefício e condições de ser mantido, acompanhando a resposta ao longo do tempo.2

Insônia e perda de peso precisam de avaliação própria quando presentes. Não se deve atribuir automaticamente à depressão todo despertar noturno, mudança de apetite ou emagrecimento. A investigação da dificuldade para dormir ajuda a compreender o que está acontecendo.

Sono e apetite: o que pode ajudar e o que pode atrapalhar

A sonolência é um efeito conhecido da mirtazapina. Em alguém com depressão e dificuldade para dormir, o sono pode melhorar; em outra situação, acordar sonolento ou ter dificuldade de concentração durante o dia pode prejudicar o funcionamento. Essas duas experiências precisam ser diferenciadas no retorno.1

Um pequeno ensaio comparou mirtazapina e fluoxetina durante oito semanas em adultos com depressão maior e insônia. A análise de 19 participantes encontrou vantagem da mirtazapina no tempo para adormecer e no tempo total de sono, medidos por exame. Não houve diferença estatisticamente significativa na melhora do humor nem na avaliação subjetiva do sono. A amostra pequena, a ausência de placebo e o financiamento do fabricante limitam as conclusões.3

Recuperar a alimentação quando ela foi prejudicada pela depressão pode ser relevante, mas isso não torna desejável qualquer aumento de peso. Apetite e peso devem ser acompanhados desde o início, considerando o estado de saúde e a trajetória de cada um. O texto sobre antidepressivos e ganho de peso aprofunda essa avaliação.1,2

Dormir melhor significa que a depressão melhorou?

Pode ser uma parte da melhora. Para avaliar a recuperação, é preciso observar também o humor, o interesse pelas atividades e a capacidade de participar da vida cotidiana. Uma pessoa pode voltar a dormir e ainda permanecer sem prazer, muito triste ou incapaz de retomar seus compromissos.2,4

Uma análise de dados individuais publicada em 2024 reuniu 37 ensaios e 5.974 adultos. Ela examinou separadamente os itens das escalas de depressão, em vez de considerar apenas a pontuação total. A vantagem da mirtazapina sobre os antidepressivos conhecidos como ISRS, no total da escala Hamilton, esteve ligada principalmente aos itens de sono, apetite e sintomas gastrointestinais. Ao fim de seis semanas, no item humor deprimido, os ISRS tiveram resultado superior.4

A mesma análise encontrou benefício da mirtazapina sobre placebo em humor deprimido e outros sintomas. Portanto, seus efeitos não se resumem à sedação. O achado ajuda a entender por que uma pontuação total melhor não significa necessariamente vantagem em todos os aspectos da depressão.4

Os dados vieram de ensaios antigos patrocinados pelo fabricante, com informações incompletas e perdas de acompanhamento. Eles não permitem prever qual medicamento funcionará melhor para uma pessoa a partir de poucos sintomas.4

No retorno, é útil descrever separadamente o que mudou:

Aspecto O que contar ao prescritor
Sono Se ficou mais fácil adormecer, se há despertares e como está ao acordar
Humor e interesse Se a tristeza diminuiu e se voltou a ter interesse ou prazer
Funcionamento Se consegue cuidar de si, manter compromissos e se concentrar
Apetite e peso Se a alimentação se regularizou, se a fome aumentou e como o peso evoluiu

E quando ela é associada a outro antidepressivo?

O estudo MIR investigou essa pergunta em 480 adultos atendidos na atenção primária britânica, ainda deprimidos após pelo menos seis semanas de um ISRS ou IRSN. Esses nomes designam classes de antidepressivos. O estudo não exigiu duas tentativas anteriores sem resposta.5

Em 12 semanas, acrescentar mirtazapina não demonstrou benefício clinicamente importante na medida principal de depressão: a diferença ajustada foi de 1,83 ponto a favor da associação na escala BDI-II, sem significância estatística. Entre os 214 participantes avaliados no grupo mirtazapina e os 217 no placebo, houve resposta — redução de pelo menos metade da pontuação inicial — em 44% e 36%, respectivamente. A remissão, definida no estudo por pontuação abaixo de 10 no BDI-II, ocorreu em 29% e 24%. Nenhuma dessas diferenças secundárias foi estatisticamente significativa.5

Nas primeiras 12 semanas, eventos adversos levaram 46 pessoas do grupo mirtazapina e nove do placebo a interromper a medicação do estudo. Os resultados pesam contra acrescentá-la automaticamente quando outro antidepressivo não ajudou o suficiente. Não avaliam, porém, sua utilização isolada nem a troca de um medicamento por ela.5

A diretriz canadense CANMAT, em sua atualização de 2023, inclui essa associação entre as opções de segunda linha para situações selecionadas de depressão unipolar de difícil tratamento. Isso exige discutir alternativas, benefício esperado e efeitos adicionais, como parte da avaliação de resposta insuficiente ao antidepressivo.2

O que observar e comunicar no acompanhamento?

Sonolência, tontura, aumento de apetite e mudanças de peso devem ser relatados, inclusive quando o sono melhorou. A bula brasileira consultada orienta não dirigir veículos nem operar máquinas durante todo o tratamento, pois a atenção e a capacidade de reação podem ser prejudicadas.1

O álcool deve ser evitado, e o prescritor precisa conhecer outras medicações e suplementos. A mirtazapina pode intensificar o efeito de sedativos; algumas associações também elevam o risco de síndrome serotoninérgica, uma reação potencialmente grave. Não é seguro acrescentar medicamentos por conta própria, inclusive para dormir.1

É importante avisar prontamente se surgirem aceleração incomum, impulsividade ou redução da necessidade de dormir sem cansaço, possíveis sinais de mania ou hipomania. Isso difere de simplesmente descansar melhor à noite. O histórico de episódios desse tipo também deve ser informado antes de iniciar um antidepressivo.1,2

A interrupção abrupta pode provocar sintomas de retirada; isso não é o mesmo que dependência. Qualquer mudança deve ser combinada com o prescritor. Para o próximo retorno, leve tanto o que melhorou quanto o que passou a atrapalhar: dormir mais, por exemplo, precisa ser avaliado junto da disposição ao acordar e da evolução do humor.1,2

Referências

  1. Organon Brasil. Remeron SolTab: mirtazapina — bula do profissional de saúde. Código Remeron SolTab_BU22_072020_VPS. Registro 1.0029.0224. Arquivo com copyright 2026 e histórico de submissão de 16 dez. 2025. Consultado em 4 out. 2026.
  2. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
  3. Winokur A, DeMartinis NA 3rd, McNally DP, Gary EM, Cormier JL, Gary KA. Comparative effects of mirtazapine and fluoxetine on sleep physiology measures in patients with major depression and insomnia. J Clin Psychiatry. 2003;64(10):1224–1229. doi:10.4088/JCP.v64n1013.
  4. Hieronymus F, Lisinski A, Eriksson E. Impact of sedative and appetite-increasing properties on the apparent antidepressant efficacy of mirtazapine, selective serotonin reuptake inhibitors and amitriptyline: an item-based, patient-level meta-analysis. EClinicalMedicine. 2024;77:102904. doi:10.1016/j.eclinm.2024.102904.
  5. Kessler DS, MacNeill SJ, Tallon D, Lewis G, Peters TJ, Hollingworth W, et al. Mirtazapine added to SSRIs or SNRIs for treatment resistant depression in primary care: phase III randomised placebo controlled trial (MIR). BMJ. 2018;363:k4218. doi:10.1136/bmj.k4218.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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