TDAH e direção: distração, impulsividade e segurança ao volante
Postado em: 22/10/2026
O TDAH pode dificultar a atenção e o controle dos impulsos ao dirigir. O diagnóstico, porém, não descreve sozinho como uma pessoa se comporta no trânsito. Para avaliar essa dificuldade, o médico precisa saber o que acontece nos seus trajetos e se o tratamento está ajudando.1
Considere uma situação ilustrativa: depois de perder uma saída, alguém começa a procurar outra rota no celular enquanto o carro está em movimento. Em outra ocasião, reage à buzina do motorista de trás com uma manobra precipitada. Esses episódios não confirmam TDAH. Em quem já tem o diagnóstico, ajudam a identificar dificuldades concretas que uma pergunta como “sua atenção melhorou?” pode deixar passar.
O que resolver antes de sair
Preparar o percurso com o carro parado reduz a necessidade de dividir a atenção entre dirigir e resolver outra tarefa. As orientações gerais de segurança incluem:2
- Definir a rota e ajustar espelhos e áudio antes de sair. Se precisar mudar uma configuração durante o percurso, procure primeiro um local seguro para parar.
- Silenciar as notificações e deixar o celular fora do alcance da mão. Assim, uma mensagem recebida não exige decidir, a cada alerta, se será respondida.
- Combinar a ajuda do passageiro, quando houver. Ele pode conferir o endereço e orientar a navegação, evitando que o motorista precise operar o aplicativo.
São medidas de segurança úteis para motoristas em geral; não constituem um protocolo comprovado especificamente para TDAH. O objetivo é reduzir tarefas concorrentes, em vez de depender apenas da intenção de “prestar mais atenção”.2
Sonolência muda a decisão de dirigir
Uma noite mal dormida, o consumo de álcool ou um medicamento que provoque sonolência podem comprometer a direção, inclusive quando os sintomas de TDAH estão melhor controlados. O tratamento do transtorno não elimina esses efeitos. Confira a orientação da bula dos medicamentos que utiliza, inclusive os comprados sem receita, e avise o prescritor se estiver ficando sonolento nos horários em que precisa dirigir.3
Se houver sonolência ou outro comprometimento importante da capacidade de dirigir, não inicie o trajeto. Se isso surgir ao volante, pare em um local seguro e organize outra forma de transporte. Café, uma dose extra de estimulante ou uma volta curta para “testar” a atenção não devem ser usados como garantia de segurança.3
O tratamento do TDAH pode melhorar a direção?
Há resultados favoráveis, tanto em pesquisas sobre acidentes registrados quanto em testes de direção simulada. Os estudos medem aspectos diferentes do problema.
Em um estudo com 2,3 milhões de adultos nos Estados Unidos, os pesquisadores compararam períodos da mesma pessoa com e sem tratamento para TDAH, identificados pelos registros de retirada do medicamento e pela duração prevista de cada prescrição. Nos meses com medicação, houve associação com chances estatísticas de acidente com atendimento de emergência 38% menores nos homens e 42% menores nas mulheres — odds ratios de 0,62 e 0,58. São comparações relativas: não significam que 38 ou 42 de cada 100 pacientes deixarão de sofrer um acidente.4
Um ensaio de seis semanas, com 61 adultos de 18 a 26 anos, comparou lisdexanfetamina e placebo em um simulador. O grupo que recebeu o medicamento apresentou respostas mais rápidas a eventos inesperados e menos colisões simuladas. O resultado ajuda a entender um possível benefício sobre o desempenho, mas não mediu acidentes nas ruas nem comparou a lisdexanfetamina com outros medicamentos.5
Em 2025, uma pesquisa com registros suecos acrescentou dados de acompanhamento por até dois anos. A análise dos primeiros acidentes de transporte no acompanhamento incluiu 89.672 pessoas diagnosticadas após os 15 anos e encontrou taxas ponderadas de 24 eventos por 1.000 pessoas-ano entre quem iniciou tratamento, contra 27,5 entre quem não iniciou.6
“Pessoas-ano” soma o tempo acompanhado: 1.000 pessoas observadas durante um ano, por exemplo, correspondem a 1.000 pessoas-ano. A comparação ajustada indicou uma taxa relativa 12% menor, com intervalo de confiança compatível com redução de 6% a 18%. O desfecho incluía acidentes de transporte, não apenas acidentes de motoristas de automóvel.6
Os estudos americano e sueco são observacionais. Apesar dos ajustes na análise, outras diferenças entre os períodos ou grupos podem influenciar os resultados, e retirar o medicamento na farmácia não confirma que ele foi tomado antes de um trajeto. Por isso, os achados sustentam a importância de incluir a direção na avaliação do tratamento, sem comprovar que a medicação, sozinha, causou toda a diferença observada ou prever o benefício individual. Como as populações e as medidas diferem, os percentuais dos dois estudos não são diretamente comparáveis.4,6
O horário do trajeto também importa na consulta
A concentração pode melhorar no trabalho e ainda haver dificuldades para dirigir na volta para casa. Informe em quais períodos você dirige, quais dificuldades persistem e se percebeu alguma mudança depois de iniciar ou ajustar o tratamento. Isso ajuda o prescritor a avaliar o benefício ao longo do dia, junto com sono e efeitos indesejados.1
Se a dificuldade se concentra em um horário, leve essa informação ao médico. Não antecipe, aumente ou acrescente uma dose por conta própria para dirigir. A escolha do medicamento depende da resposta e da tolerabilidade; o artigo sobre metilfenidato e lisdexanfetamina no TDAH adulto explica os fatores que orientam essa decisão.
O que relatar depois de um episódio
Um quase acidente merece ser relatado mesmo que ninguém tenha se ferido. Depois de terminar o trajeto, uma anotação breve pode ajudar a reconstruir o que ocorreu: qual foi a dificuldade, em que horário, como estava o sono e se houve mudança recente de medicamento ou uso de álcool. Registre apenas quando estiver fora da direção; não é necessário filmar os trajetos nem acompanhar cada distração.
Um relato hipotético seria: “Na volta do trabalho, tentei mexer na rota e percebi tarde que o trânsito havia parado. Tinha dormido pouco na noite anterior”. Isso permite examinar o episódio e seus fatores associados, em vez de atribuir tudo ao TDAH. Dificuldades repetidas ou uma situação que tenha colocado alguém em risco justificam antecipar o contato com o profissional, sem esperar outro acidente.
Você pode levar à próxima consulta a pergunta: “Que dificuldades ao dirigir precisamos considerar ao avaliar meu tratamento?” O guia de TDAH em adultos aprofunda como participar desse acompanhamento. Quando há comprometimento da segurança, as estratégias de organização precisam vir acompanhadas de avaliação — não servem como um teste para decidir, sozinho, que já é seguro voltar ao volante.
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NICE guideline NG87 [Internet]. London: NICE; 2018 [atualizado 13 set 2019; citado 22 out 2026]. Recomendação 1.4.3. Disponível em: NICE — recomendações.
- Centers for Disease Control and Prevention. What you can do to prevent distracted driving [Internet]. Atlanta: CDC; 28 jul 2025 [citado 22 out 2026]. Disponível em: CDC — prevenção de distrações ao dirigir.
- National Highway Traffic Safety Administration. Drowsy driving [Internet]. Washington, DC: NHTSA [citado 22 out 2026]. Disponível em: NHTSA — sonolência ao volante.
- Chang Z, Quinn PD, Hur K, Gibbons RD, Sjölander A, Larsson H, et al. Association between medication use for attention-deficit/hyperactivity disorder and risk of motor vehicle crashes. JAMA Psychiatry. 2017;74(6):597–603. doi:10.1001/jamapsychiatry.2017.0659.
- Biederman J, Fried R, Hammerness P, Surman C, Mehler B, Petty CR, et al. The effects of lisdexamfetamine dimesylate on the driving performance of young adults with ADHD: a randomized, double-blind, placebo-controlled study using a validated driving simulator paradigm. J Psychiatr Res. 2012;46(4):484–491. doi:10.1016/j.jpsychires.2012.01.007.
- Zhang L, Zhu N, Sjölander A, Nourredine M, Li L, Garcia-Argibay M, et al. ADHD drug treatment and risk of suicidal behaviours, substance misuse, accidental injuries, transport accidents, and criminality: emulation of target trials. BMJ. 2025;390:e083658. doi:10.1136/bmj-2024-083658. Correção: BMJ. 2025;390:r1827. doi:10.1136/bmj.r1827.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.