Depressão em quem tem Alzheimer: como reconhecer e o que muda no tratamento?

Postado em: 02/11/2026

Profissional se aproxima para conversar com mulher idosa sentada em cadeira de rodas.

Uma pessoa com Alzheimer pode também ter depressão e precisar de tratamento para ela. Mas participar menos, falar pouco ou deixar de iniciar atividades não confirma esse diagnóstico: a redução da iniciativa também pode estar ligada à apatia. Entender o que mudou em relação ao comportamento habitual é o começo dessa avaliação.1,2

Pouca iniciativa pode ter significados diferentes

Na apatia, diminui a motivação para começar ou manter uma atividade. A pessoa pode depender de alguém para sugerir e organizar até tarefas familiares. Isso não significa preguiça ou desinteresse pela família. A depressão costuma acrescentar sofrimento, como tristeza, culpa ou desesperança, mas as duas condições podem coexistir.2

Perda de prazer, irritabilidade persistente, mudanças no sono e no apetite também podem aparecer na depressão. No Alzheimer, alguns desses sinais se confundem com dificuldades já existentes. Por isso, o médico precisa saber se são novos, como evoluíram e o que passaram a impedir. A ausência de choro não descarta depressão, assim como uma recusa ocasional não a confirma.1,2

A avaliação inclui possíveis fontes de desconforto, como dor, alterações clínicas, efeitos de medicamentos e situações do ambiente. Não basta explicar toda mudança pelo Alzheimer. O relato de quem acompanha a rotina ajuda, mas a pessoa deve continuar sendo ouvida, com tempo e linguagem compatíveis com sua capacidade de comunicação.3

Confusão que surge de repente ou piora muito em relação ao habitual, com desorientação ou dificuldade abrupta para prestar atenção, exige atendimento imediato. Pode ser delirium, um estado de confusão aguda. Não se deve esperar uma consulta de rotina atribuindo a mudança à depressão ou à progressão da demência.4

Por que a decisão sobre antidepressivos é diferente

A família pode esperar que um antidepressivo produza o mesmo benefício observado em alguém sem demência. Os estudos específicos em Alzheimer, porém, não sustentam essa expectativa de maneira tão consistente.

No estudo HTA-SADD, 326 pessoas com Alzheimer possível ou provável e sintomas depressivos foram distribuídas entre sertralina, mirtazapina e placebo, todos associados ao acompanhamento habitual. Na avaliação principal, em 13 semanas, nenhum dos dois medicamentos demonstrou benefício significativo sobre o placebo na redução dos sintomas depressivos. O resultado permaneceu semelhante na avaliação de 39 semanas.5

As reações adversas ocorreram em 43% do grupo sertralina, 41% do grupo mirtazapina e 26% do grupo placebo. Esses números incluem reações de diferentes gravidades; não representam apenas eventos graves.5

Outro ensaio, o DIADS-2, acompanhou 131 pessoas com Alzheimer leve a moderado e depressão. Em 12 semanas, a sertralina não mostrou vantagem significativa sobre placebo na melhora clínica ou na redução dos sintomas depressivos e provocou mais eventos adversos.6

Isso ajuda a explicar por que a diretriz NICE não recomenda oferecer antidepressivos rotineiramente quando tanto a demência quanto a depressão são leves ou moderadas, salvo indicação por um problema mental grave preexistente. A recomendação tem esse recorte; não é uma proibição para toda pessoa com Alzheimer.3

Para decidir, o médico considera a gravidade da depressão, os episódios anteriores, o benefício já obtido, os demais medicamentos e os efeitos adversos que a pessoa apresenta ou pode apresentar. O HTA-SADD excluiu situações clinicamente críticas, como risco de suicídio, e pessoas que já usavam antidepressivos. Seus resultados não justificam suspender por conta própria um tratamento que vem ajudando.5

Sofrimento intenso, pensamentos de morte ou dificuldade importante para manter alimentação e outras necessidades básicas exigem avaliação pronta. Se houver perigo imediato, procure atendimento de emergência.1,3

Como adaptar a psicoterapia às dificuldades cognitivas

A possibilidade de aproveitar uma psicoterapia depende, entre outros fatores, da compreensão, da comunicação e da memória. O profissional precisa ajustar o trabalho a essas condições. Para pessoas com demência leve a moderada e depressão leve a moderada, o NICE orienta considerar tratamentos psicológicos.1,3

Um ensaio de 2024 incluiu 336 pessoas com demência leve ou moderada por Alzheimer, inclusive formas mistas com demência vascular, e sintomas depressivos clinicamente significativos. O estudo comparou uma terapia adaptada para lidar com dificuldades e emoções, chamada PATH, com o acompanhamento habitual. Uma análise secundária encontrou pequena diferença favorável à terapia aos três meses; na avaliação principal, aos seis meses, não houve benefício significativo sobre os sintomas depressivos.7

O programa tinha oito sessões e dois encontros de reforço. O resultado se refere a essa intervenção específica e não permite descartar outras formas de psicoterapia. No acompanhamento, é preciso observar se a pessoa consegue aproveitar as sessões e se o sofrimento diminui.7

Apoiar a participação sem cobrar o desempenho de antes

Reduzir obstáculos pode ser mais útil do que insistir para a pessoa “ter disposição”. Uma atividade conhecida pode ter se tornado difícil porque agora exige muitas etapas, e não porque deixou de ter significado.2

Considere um exemplo ilustrativo: alguém que gostava de plantas já não consegue organizar todo o trabalho no jardim. Uma possibilidade seria escolher com essa pessoa uma tarefa breve e segura, como regar um vaso com um recipiente leve já preparado. Oferecer a ajuda necessária e observar se ela se sente à vontade permite ajustar a atividade. Ela pode recusar, preferir outra tarefa ou apenas acompanhar. O objetivo é permitir participação, sem exigir a rotina antiga.

Essa adaptação não substitui o tratamento da depressão, e a reação a uma tentativa isolada não mede sua eficácia. Quem acompanha também pode precisar de apoio — tema desenvolvido no artigo sobre saúde mental do cuidador familiar.

Na avaliação dos resultados, humor e cognição precisam ser observados separadamente. A pessoa pode sofrer menos e voltar a demonstrar interesse, embora continue esquecendo informações. Recuperar a memória não é requisito para reconhecer melhora da depressão; a persistência dos esquecimentos também não é motivo para deixar o sofrimento sem tratamento.1

Referências

1. Alzheimer’s Society. Depression and dementia [Internet]. London: Alzheimer’s Society; [citado 2 nov 2026]. Fonte.

2. Alzheimer’s Society. Apathy and dementia [Internet]. London: Alzheimer’s Society; [citado 2 nov 2026]. Fonte.

3. National Institute for Health and Care Excellence. Dementia: assessment, management and support for people living with dementia and their carers. NICE guideline NG97 [Internet]. London: NICE; 2018 [citado 2 nov 2026]. Fonte.

4. National Health Service. Sudden confusion (delirium) [Internet]. London: NHS; [citado 2 nov 2026]. Fonte.

5. Banerjee S, Hellier J, Dewey M, Romeo R, Ballard C, Baldwin R, et al. Sertraline or mirtazapine for depression in dementia (HTA-SADD): a randomised, multicentre, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2011;378(9789):403–11. doi:10.1016/S0140-6736(11)60830-1. Fonte.

6. Rosenberg PB, Drye LT, Martin BK, Frangakis C, Mintzer JE, Weintraub D, et al.; DIADS-2 Research Group. Sertraline for the treatment of depression in Alzheimer disease. Am J Geriatr Psychiatry. 2010;18(2):136–45. doi:10.1097/JGP.0b013e3181c796eb. Fonte.

7. Howard R, Cort E, Rawlinson C, Wiegand M, Downey A, Lawrence V, et al. Adapted problem adaptation therapy for depression in mild to moderate Alzheimer’s disease dementia: a randomized controlled trial. Alzheimers Dement. 2024;20(4):2990–9. doi:10.1002/alz.13766. Fonte.

Imagem ilustrativa: adaptação com IA a partir de fotografia de Jsme MILA / Pexels.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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