Como funciona a infusão de cetamina em casos de fibromialgia?
Postado em: 08/09/2025
A infusão de cetamina tem sido estudada como uma alternativa para pessoas com fibromialgia que continuam apresentando dor e prejuízo na qualidade de vida apesar dos tratamentos habituais.
Em pacientes selecionados, estudos identificaram redução rápida da intensidade da dor, da sensibilidade dolorosa e da área de dor referida. A resposta varia entre as pessoas, por isso o protocolo é planejado individualmente e acompanhado sessão a sessão.
Neste texto, usamos “cetamina” por ser o termo mais conhecido. No Brasil, o medicamento injetável disponível para uso humano é o cloridrato de escetamina.

Em resumo
- A infusão pode reduzir a dor em pacientes selecionados.
- A administração é intravenosa e realizada com monitorização clínica.
- O protocolo é ajustado conforme a resposta e a tolerabilidade.
- Dor, sono, disposição, humor e capacidade funcional podem ser acompanhados.
- O tratamento pode ser integrado às demais estratégias utilizadas na fibromialgia.
Autoria médica: Dra. Giuliana Cividanes
Quem pode se beneficiar da avaliação?
A infusão pode ser considerada quando a fibromialgia continua interferindo significativamente na rotina, mesmo após o uso adequado de outras estratégias de tratamento.
Na avaliação inicial, o médico analisa os sintomas predominantes, os tratamentos anteriores e as condições clínicas associadas. Também são observados o sono, o humor, a energia, a atividade física e o impacto da dor sobre o trabalho e as tarefas cotidianas.
Essa análise permite identificar os pacientes com maior possibilidade de benefício e definir objetivos concretos para o tratamento. Para uma visão mais ampla, veja quando a cetamina pode ser considerada na dor crônica.
Como funciona o protocolo de infusão?
O protocolo começa com uma avaliação médica detalhada e segue algumas etapas:
- Avaliação clínica: revisão do diagnóstico, do histórico de saúde e dos tratamentos já realizados.
- Definição dos objetivos: identificação dos sintomas e limitações que serão acompanhados.
- Planejamento individual: escolha da dose e da duração da infusão de acordo com o quadro clínico.
- Infusão intravenosa: administração gradual do medicamento, com acompanhamento da equipe.
- Monitorização: observação da pressão arterial, frequência cardíaca, nível de consciência e conforto durante a sessão.
- Reavaliação: comparação dos resultados com os objetivos definidos inicialmente.
O acompanhamento próximo permite ajustar o tratamento de maneira mais precisa, levando em consideração tanto os benefícios percebidos quanto a experiência do paciente durante as sessões.
Quais benefícios foram observados nos estudos?
Os resultados mais promissores estão relacionados à redução rápida da dor. Estudos com infusão intravenosa identificaram diminuição da intensidade dolorosa, da sensibilidade nos pontos dolorosos e das áreas de dor local e referida.
Em alguns estudos, parte dos participantes apresentou redução de pelo menos 50% na intensidade da dor. Também foram observadas melhoras em medidas de funcionamento físico e no processamento da dor.[1,2]
Esse alívio pode facilitar a retomada gradual de atividades, exercícios e outras estratégias importantes para o cuidado da fibromialgia. Quando há depressão associada, o acompanhamento psiquiátrico permite observar simultaneamente mudanças no humor, na disposição e no funcionamento cotidiano.
Quantas sessões são realizadas?
A quantidade e o intervalo entre as infusões são definidos conforme a resposta clínica e a tolerabilidade. Alguns pacientes podem perceber mudanças desde as primeiras aplicações, enquanto outros precisam de uma avaliação ao longo de mais sessões.
Em vez de adotar um número rígido para todos, o protocolo utiliza a evolução de cada paciente para orientar as etapas seguintes. Dor, sono, energia e capacidade funcional podem ser registrados antes e depois das sessões para tornar essa decisão mais objetiva.
Por que a cetamina pode ajudar na fibromialgia?
A cetamina atua sobre receptores NMDA, envolvidos na transmissão do glutamato e no processamento da dor pelo sistema nervoso central.
Essa ação é relevante porque a fibromialgia está associada à sensibilização central — um estado no qual o sistema nervoso passa a amplificar estímulos dolorosos. Ao modular essa via, a cetamina pode reduzir temporariamente essa amplificação e produzir alívio da dor.[1,2]
Como a infusão se integra aos outros tratamentos?
A redução da dor pode criar melhores condições para que o paciente retome atividade física, cuide do sono e participe de outras etapas do tratamento.
Por isso, a infusão é integrada a um plano mais amplo, que pode envolver exercícios adaptados, medicamentos, psicoterapia e estratégias de manejo do sono. As recomendações da EULAR apoiam essa combinação de abordagens de acordo com os sintomas e as necessidades de cada pessoa.[3]
O que a ciência mostra até agora?
As revisões disponíveis apontam potencial de redução da dor no curto prazo e boa tolerabilidade em pacientes selecionados. Os efeitos observados durante as pesquisas foram, em sua maioria, leves ou moderados e transitórios.[1,2]
A duração do benefício ainda varia entre os estudos. Essa é uma das razões para acompanhar a resposta individual, em vez de prever antecipadamente o mesmo resultado para todos.
O conjunto das evidências permite considerar a infusão como uma alternativa em casos selecionados, especialmente quando a fibromialgia permanece sintomática apesar dos tratamentos estabelecidos. Leia também o que a ciência mostra sobre fibromialgia, depressão e cetamina.
Como é feito o acompanhamento?
Após cada sessão, a equipe avalia a evolução da dor e de outros aspectos relevantes, como sono, disposição, humor, mobilidade e capacidade de realizar atividades.
Durante a infusão podem ocorrer tontura, sonolência, náusea, alterações transitórias da percepção ou aumento da pressão arterial. Esses efeitos costumam desaparecer após o término da administração, e a monitorização permite identificá-los e manejá-los prontamente.
Para saber se a infusão de cetamina pode fazer sentido no seu caso, o primeiro passo é uma avaliação médica individual.
Referências
- Carvalho JF, Sena EP. Ketamine in fibromyalgia: a systematic review. Advances in Rheumatology. 2024.
- Pastrak M, Abd-Elsayed A, Ma F, et al. Systematic Review of the Use of Intravenous Ketamine for Fibromyalgia. Ochsner Journal. 2021.
- Macfarlane GJ, et al. EULAR revised recommendations for the management of fibromyalgia. Annals of the Rheumatic Diseases. 2017.
- Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 20/2024.
- Anvisa. Cloridrato de escetamina: registro de genérico.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.