Aripiprazol associado ao antidepressivo: por que pode ser usado na depressão?

Postado em: 03/10/2026

Dois comprimidos de aripiprazol sobre uma superfície cinza.

O aripiprazol pode ser acrescentado ao antidepressivo quando a melhora da depressão é insuficiente. Essa estratégia é chamada de potencialização: mantém-se o antidepressivo e associa-se outro medicamento com evidência de benefício nessa situação.1

Embora pertença à classe dos antipsicóticos, seu uso não significa, por si só, que a pessoa tenha psicose. Há estudos da associação em adultos com depressão maior sem sintomas psicóticos. Este texto trata da depressão unipolar, que não faz parte de um transtorno bipolar.2

Na bula brasileira de aripiprazol comprimidos da Aché consultada para este artigo, a associação ao antidepressivo para tratar depressão não aparece entre as indicações. Para essa apresentação, portanto, trata-se de uso fora das indicações da bula, ou off-label. Essa informação se refere ao produto consultado; não é uma afirmação sobre todas as marcas e apresentações disponíveis no Brasil.3

Quando acrescentar um medicamento entra na conversa?

Se o antidepressivo ajudou, mas a melhora ficou incompleta, preservar esse benefício pode pesar a favor de uma associação. Já a ausência de benefício ou efeitos adversos que dificultam o uso podem favorecer a troca. A decisão considera o histórico de tratamento, a tolerabilidade e as preferências da pessoa; uma resposta parcial não torna a associação obrigatória.1

Na atualização CANMAT de 2023, publicada em 2024, o aripiprazol está entre as opções de primeira linha para tratamento adjuvante. Isso não o torna a primeira escolha para toda pessoa com depressão.1

Acrescentar um remédio também pode aumentar efeitos indesejados e exige rever possíveis interações. Outras associações, como o lítio na depressão unipolar, podem entrar na discussão, sem que uma delas seja automaticamente melhor para todos.4 O guia sobre ajustar, trocar ou potencializar o antidepressivo explica essa avaliação mais ampla.

O que os estudos mostram sobre o benefício?

No VAST-D, 1.522 adultos com depressão maior sem psicose e resposta insuficiente ao antidepressivo foram distribuídos entre três estratégias: trocar o medicamento por bupropiona, acrescentar bupropiona ou acrescentar aripiprazol. A maioria eram homens veteranos dos Estados Unidos.2

Em 12 semanas, associar aripiprazol aumentou modestamente a chance de remissão em comparação com trocar para bupropiona. Remissão era atingir um nível baixo de sintomas, segundo o critério definido pelo estudo. Na comparação entre acrescentar aripiprazol e acrescentar bupropiona, não houve diferença estatisticamente significativa de remissão. Isso não demonstra equivalência entre as duas associações.2

O OPTIMUM avaliou pessoas com 60 anos ou mais e depressão resistente. Na primeira etapa, ao longo de cerca de dez semanas, acrescentar aripiprazol trouxe maior melhora de bem-estar do que trocar o antidepressivo por bupropiona. Não houve diferença significativa nesse desfecho entre as associações com aripiprazol e com bupropiona. Era um estudo aberto: participantes e profissionais sabiam qual tratamento estava sendo usado, embora os avaliadores não soubessem a qual grupo cada participante pertencia.5

Nesse ensaio, bem-estar era o resultado principal. As comparações de remissão, por serem secundárias e não terem ajuste para os vários testes estatísticos realizados, exigem cautela. Além disso, o estudo avaliou essas três estratégias em pessoas com 60 anos ou mais; não estabelece superioridade sobre todas as alternativas nem permite estender automaticamente os resultados a adultos mais jovens.5

O que merece atenção durante o uso?

A acatisia é uma inquietação interna que pode vir acompanhada de dificuldade para permanecer sentado ou parado. A pessoa pode sentir necessidade de andar ou movimentar as pernas, mesmo querendo descansar. Se isso surgir após o início do medicamento, descreva ao prescritor quando começou e como está afetando o dia; a avaliação precisa distinguir essa reação de outras causas de inquietação.6

No VAST-D, acatisia, sonolência e ganho de peso foram mais frequentes entre os participantes que receberam aripiprazol. O benefício observado no estudo deve ser considerado junto desses efeitos.2

O acompanhamento inclui peso, pressão arterial e avaliação metabólica, com atenção à glicose e aos lipídios, como colesterol e triglicérides. A equipe define os exames e a frequência conforme o medicamento, as condições clínicas e os resultados anteriores. Tremores, rigidez ou outros movimentos incomuns também devem ser relatados.4

Também foram relatadas mudanças incomuns de impulsos durante o uso de aripiprazol, como vontade difícil de controlar de jogar, comprar, comer ou ter atividade sexual. Mudanças desse tipo merecem contato com o médico, mesmo quando a pessoa tem vergonha de falar sobre elas.7

Como saber se a associação está ajudando?

Na consulta de retorno, vale comparar o que mudou desde o início da associação. Além da tristeza, observe interesse pelas atividades, disposição, concentração e capacidade de cumprir compromissos. Por exemplo, relatar “voltei a preparar minhas refeições, mas passo a tarde sonolento” oferece mais informação do que apenas dizer “estou um pouco melhor”.4

Ao discutir se a associação deve ser mantida, o médico considera tanto a melhora quanto os sintomas que persistem e os efeitos adversos.4

A evidência sobre manutenção prolongada dessas associações é mais limitada. Não há uma duração única de uso que possa ser definida para todos a partir dos ensaios de curto prazo.1

O que perguntar na próxima consulta?

Três perguntas ajudam a tornar a proposta mais clara:

  • Qual benefício esperamos acrescentar ao tratamento que já estou fazendo?
  • Quais alternativas foram consideradas e por que esta associação foi escolhida?
  • Quais mudanças devo comunicar antes do retorno, e como entro em contato com a equipe?

Leve também dúvidas sobre a bula e dificuldades que possam atrapalhar o uso. Não acrescente, ajuste ou interrompa o aripiprazol por conta própria. Se houver efeitos novos ou piora importante, contate o prescritor para reavaliar o plano.

Na Genuine Mental Health, a avaliação da depressão resistente permite rever o que já foi tentado e discutir as opções de tratamento.

Referências

  1. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
  2. Mohamed S, Johnson GR, Chen P, Hicks PB, Davis LL, Yoon J, et al. Effect of Antidepressant Switching vs Augmentation on Remission Among Patients With Major Depressive Disorder Unresponsive to Antidepressant Treatment: The VAST-D Randomized Clinical Trial. JAMA. 2017;318(2):132–145. doi:10.1001/jama.2017.8036.
  3. Aché Laboratórios Farmacêuticos. Aripiprazol comprimidos: bula para profissionais de saúde. BU04a_VPS. Registro 1.0573.0661. Bula padrão aprovada pela Anvisa em 1 ago 2023, conforme o documento. Acesso em 2 out 2026.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. 2022. Recomendações 1.4.33–1.4.37 e 1.9.9. Acesso em 2 out 2026.
  5. Lenze EJ, Mulsant BH, Roose SP, Lavretsky H, Reynolds CF 3rd, Blumberger DM, et al. Antidepressant Augmentation versus Switch in Treatment-Resistant Geriatric Depression. N Engl J Med. 2023;388(12):1067–1079. doi:10.1056/NEJMoa2204462.
  6. Pringsheim T, Gardner D, Addington D, Martino D, Morgante F, Ricciardi L, et al. The Assessment and Treatment of Antipsychotic-Induced Akathisia. Can J Psychiatry. 2018;63(11):719–729. doi:10.1177/0706743718760288.
  7. NCS HealthCare of KY, LLC dba Vangard Labs. Aripiprazole tablets, for oral use: prescribing information [Internet]. DailyMed; 2022. Bula norte-americana, revisão de ago 2022. Seção 5.7 e Medication Guide. Acesso em 3 out 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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