Sexualidade no transtorno bipolar: como o humor e o tratamento podem afetar o desejo
Postado em: 12/10/2026
Uma mudança na vida sexual de quem tem transtorno bipolar pode acompanhar um episódio de humor, persistir fora das crises ou aparecer durante o tratamento. Para entendê-la, importa saber o que mudou em relação ao habitual e quando isso começou. A resposta nem sempre está apenas no diagnóstico ou no medicamento.1,2
Falta de vontade, dificuldade de excitação e dificuldade para chegar ao orgasmo são experiências diferentes. Descrever o que mudou ajuda o psiquiatra a investigar o problema e a discutir alternativas.
O que exatamente mudou na vida sexual?
Desejo é o interesse por uma experiência sexual. Excitação inclui as sensações e respostas do corpo, como ereção e lubrificação. O orgasmo é outra dimensão, assim como a satisfação com a experiência. Intimidade, por sua vez, também pode envolver proximidade e afeto sem atividade sexual.
Considere duas situações ilustrativas: uma pessoa perdeu o interesse por sexo; outra continua sentindo desejo, mas passou a ter dificuldade para chegar ao orgasmo. As duas podem dizer que a vida sexual piorou, embora estejam descrevendo problemas distintos. Na consulta, vale contar qual dessas partes mudou, se há desconforto e o quanto isso incomoda.
A referência é o funcionamento e as preferências da própria pessoa. A quantidade de relações, sozinha, diz pouco sobre sua satisfação. Saúde sexual também envolve bem-estar, respeito e experiências livres de pressão ou coerção.3 Preferências diferentes entre parceiros podem ser conversadas sem estabelecer que um deles tem a frequência “correta”.
Quando a mudança acompanha uma fase do humor
Durante uma depressão, a perda de interesse e de prazer pode alcançar a vida sexual. Na mania ou hipomania, pode haver aumento do interesse por sexo, junto de mudanças de energia, sono e comportamento. Isso não acontece da mesma forma com todas as pessoas com transtorno bipolar.1
O conjunto dos sinais é o que orienta a avaliação. Um aumento do desejo acompanhado de noites muito mais curtas sem cansaço, aceleração e decisões incomuns tem um significado diferente de uma mudança isolada na libido. Desejo elevado ou uma preferência sexual, por si só, não estabelece um episódio de mania.1
Se a mudança sexual faz parte de uma alteração marcante do comportamento, é melhor antecipar o contato com a equipe. O artigo sobre mania e sinais de alerta explica quais outras manifestações merecem avaliação. Para a consulta, um relato concreto — quando começou, como a pessoa passou a dormir e o que mudou nas atividades — ajuda mais do que classificar seu comportamento como “exagerado”.
E quando o humor parece estável?
Dificuldades de desejo, excitação e orgasmo também foram observadas em pessoas com humor estável. Um estudo com 114 adultos com transtorno bipolar estáveis havia pelo menos seis meses encontrou diferenças nessas dimensões entre os esquemas de tratamento avaliados. A pesquisa era transversal — observava os participantes em um determinado momento — e não incluía usuários de antidepressivos ou antipsicóticos. Assim, não permite determinar a causa da dificuldade de uma pessoa nem demonstrar que trocar um medicamento a resolveria.2
Outro estudo, com 80 pessoas com transtorno bipolar e 70 participantes sem o transtorno, encontrou associação entre sintomas depressivos abaixo do limiar de um episódio completo e dificuldades sexuais, inclusive de interesse e orgasmo. O achado sugere que sintomas mais discretos também merecem ser discutidos; não demonstra qual alteração veio primeiro.4
Na prática, vale explicar o que significa “estar estável”: não ter tido crises recentes, ter recuperado a disposição ou apenas estar conseguindo trabalhar? Ainda há perda de prazer em outras atividades? A dificuldade sexual já existia antes do tratamento? Essas perguntas ajudam a evitar que uma queixa persistente seja atribuída automaticamente ao medicamento ou deixada de lado porque as crises diminuíram.
Como conversar sobre o tratamento
Se o problema começou depois da introdução ou de uma mudança de medicamento, leve essa sequência à consulta. A proximidade no tempo é uma informação útil, mas precisa ser examinada junto da evolução do humor e dos demais fatores envolvidos.
Se o tratamento recuperou o sono e ajudou a prevenir episódios, mas surgiu uma dificuldade sexual, vale discutir tanto o incômodo quanto os benefícios que se deseja preservar.
A avaliação pode incluir sintomas ainda presentes, medicamentos, saúde física e aspectos da relação ou da situação em que a dificuldade ocorre. Os exames e a necessidade de consultar outro profissional dependem do que essa investigação indicar. Uma queixa sexual, isoladamente, não significa que todas as pessoas precisam do mesmo painel hormonal.
Quando há uso de antidepressivo, o texto sobre antidepressivos e libido aprofunda essa relação. Para quem usa antipsicótico, a prolactina alta associada a esses medicamentos é uma possibilidade específica a ser avaliada, sem pressupor que explique toda dificuldade sexual.
Não interrompa nem faça pausas na medicação para testar a relação com o sintoma. A investigação e eventuais ajustes devem ser combinados com o prescritor, considerando também a prevenção de novos episódios.1 É possível começar a conversa descrevendo o problema, mesmo sem saber sua causa ou qual seria a solução.
Privacidade e participação de pessoas próximas
O paciente pode querer discutir o assunto sozinho, incluir o parceiro em parte da consulta ou contar com outra pessoa de confiança. Convém combinar com a equipe quem participa e quais informações serão compartilhadas. A diretriz NICE para transtorno bipolar recomenda negociar esse compartilhamento e considerar a perspectiva e as necessidades da pessoa.5
Quem acompanha pode contribuir com observações sobre mudanças de sono, energia e comportamento, se o paciente desejar, com respeito à sua privacidade e sem pressão ou coerção.3
Para preparar a próxima consulta, basta escolher as perguntas que ajudam a explicar a situação:
- O que mudou? Vontade, excitação, orgasmo, conforto ou satisfação?
- Desde quando? Como estavam o sono e o humor naquele período? Houve mudança no tratamento?
- O que mais incomoda? E quais benefícios do tratamento a pessoa quer preservar?
- Quem deseja incluir? Há algo que prefere conversar a sós com o profissional?
Essas anotações são opcionais e pessoais. Podem servir apenas para lembrar como começar o assunto, sem precisar registrar detalhes que a pessoa não deseja compartilhar.
Referências
1. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [citado 12 out 2026]. Disponível em: material institucional.
2. García-Blanco A, García-Portilla MP, de la Fuente-Tomás L, Batalla M, Sánchez-Autet M, Arranz B, et al. Sexual dysfunction and mood stabilizers in long-term stable patients with bipolar disorder. J Sex Med. 2020;17(5):930–940. doi: 10.1016/j.jsxm.2020.01.032. Resumo consultado.
3. World Health Organization. Sexual health [Internet]. Geneva: WHO; [citado 12 out 2026]. Disponível em: página institucional.
4. Dargél AA, Mosconi E, Volant S, Taieb D, Brenot P. Sexual dysfunction among males and females with bipolar disorder and healthy subjects: the burden of illness severity. Bipolar Disord. 2022;24(6):637–646. doi: 10.1111/bdi.13249. Resumo consultado.
5. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. Clinical guideline CG185 [Internet]. London: NICE; 2014 [atualizado 2 set 2025; citado 12 out 2026]. Recomendação 1.1.7. Disponível em: diretriz.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.