Terapia de casal no tratamento da depressão: quando pode ajudar?

Postado em: 02/11/2026

Casal sentado diante de profissional durante uma sessão de aconselhamento.

A terapia comportamental de casal pode integrar o tratamento da depressão em pessoas que têm problemas no relacionamento. Segundo a diretriz NICE, do Reino Unido, essa opção pode ser considerada quando as dificuldades da relação podem contribuir para a depressão ou quando envolver o parceiro pode ajudar no tratamento. A escolha depende de avaliação e participação voluntária.1

Nessa abordagem, o terapeuta examina como os dois reagem às dificuldades e o que acontece entre eles. A depressão pode modificar a convivência, e os conflitos podem aumentar o sofrimento. Trabalhar essa relação não significa concluir que um parceiro causou a doença.2

Quando falar na presença do parceiro não é seguro

Se há ameaças, humilhação, controle sobre a vida do outro ou medo de retaliação, a prioridade é avaliar a segurança. A pessoa deve poder falar com o profissional em privado e receber apoio apropriado. Nessas condições, propor uma sessão conjunta ou insistir em uma discussão em casa pode não ser seguro.3

Violência não deve ser tratada como uma falha de comunicação pela qual os dois seriam igualmente responsáveis. A avaliação da depressão e o apoio individual podem começar sem esperar que o relacionamento se resolva.3

O que muda quando os dois estão na sessão

No atendimento conjunto, o terapeuta pode observar como um pedido é formulado, o que o outro entende e como responde. Também procura conhecer a experiência de cada pessoa: uma tentativa de ajudar pode ser vivida como cobrança, enquanto o afastamento pode ter um motivo que o parceiro desconhece.2

Na terapia interpessoal para depressão, dificuldades nas relações podem ser abordadas individualmente. Aqui, os dois participam da avaliação e das mudanças propostas. O apoio cotidiano a uma pessoa com depressão continua tendo seu lugar, mesmo quando não há terapia conjunta.2

Uma dificuldade concreta pode orientar o trabalho

Na abordagem comportamental, as sessões podem envolver comunicação, resolução de problemas e retomada de interações positivas. O terapeuta escolhe como trabalhar esses aspectos conforme as dificuldades identificadas; não há uma sequência de exercícios que sirva para todos os casais.4

Considere uma situação hipotética: uma pessoa com depressão recusa os convites para sair. O parceiro entende cada recusa como falta de interesse no relacionamento e passa a insistir. Para quem está deprimido, a insistência se torna mais uma cobrança, e o afastamento aumenta.

O terapeuta pode ajudar a esclarecer o que cada um está vivendo. A recusa se relaciona à falta de energia, ao receio de não conseguir acompanhar o programa, a um conflito entre os dois ou a mais de um desses fatores? O que o parceiro espera ao fazer o convite? A partir disso, os dois podem combinar uma atividade que seja possível para ambos naquele momento.

Na sessão seguinte, o terapeuta examina a tentativa: o combinado foi entendido da mesma forma? Era possível? Como cada um se sentiu? Se não funcionou, é preciso compreender o que dificultou sua realização, antes de propor outra mudança.4

O que os estudos permitem esperar

O NICE inclui a terapia comportamental de casal entre as opções para situações selecionadas, mas reconhece que a evidência específica ainda é limitada. A recomendação não significa que toda modalidade chamada de “terapia de casal” tenha sido igualmente estudada.5

Em um ensaio com 35 casais, o grupo que recebeu uma intervenção breve de cinco semanas teve maior redução dos sintomas depressivos do que o grupo em lista de espera. Participaram mulheres com depressão maior ou distimia — uma forma persistente de depressão — e maridos sem depressão clínica. A amostra tinha dificuldades conjugais leves ou ausentes, e o acompanhamento incluiu avaliações um e três meses depois.6

O resultado é favorável à intervenção estudada, mas não responde se ela é superior à psicoterapia individual ou aos medicamentos, que não foram os comparadores. A amostra pequena e específica também limita a aplicação dos resultados a outros casais.6

Melhorar a convivência e melhorar a depressão são resultados distintos

O acompanhamento precisa observar ambos. Uma redução dos conflitos pode ser importante mesmo que a perda de prazer e o desânimo ainda persistam. Da mesma forma, a melhora do humor não resolve necessariamente as dificuldades do relacionamento.2

Iniciar terapia de casal não é motivo para interromper medicamentos prescritos. O tratamento individual continua sendo revisto conforme os sintomas e a resposta obtida. Se um parceiro não deseja participar, permanecem outras possibilidades de tratamento para quem tem depressão.1

A proposta de terapia deve esclarecer qual dificuldade será trabalhada e sua relação com a depressão. Participar pode ajudar no tratamento, mas não torna o parceiro responsável pela recuperação nem obriga o casal a manter o relacionamento.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 2 nov 2026]. Disponível em: recomendações.
  2. University College London. Couple Therapy for Depression: competence framework [Internet]. London: UCL; [s.d.] [citado 2 nov 2026]. Disponível em: referencial de competências.
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Domestic violence and abuse: multi-agency working. Public health guideline PH50 [Internet]. London: NICE; 2014 [citado 2 nov 2026]. Disponível em: recomendações.
  4. University College London. Specific adaptations of couple therapy for depression [Internet]. London: UCL; [s.d.] [citado 2 nov 2026]. Disponível em: documento de competências.
  5. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management — rationale and impact. NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 2 nov 2026]. Disponível em: fundamentação das recomendações.
  6. Cohen S, O’Leary KD, Foran H. A randomized clinical trial of a brief, problem-focused couple therapy for depression. Behav Ther. 2010;41(4):433–46. doi:10.1016/j.beth.2009.11.004.

Imagem ilustrativa: Gustavo Fring / Pexels.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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